19/05/2019 às 19:12:00

Unabomber: A Sociedade Industrial e seu Futuro

Em 22 de janeiro de 1998 Theodore Kaczynski, gênio matemático, confessa sua culpa como autor de diversos atentados a bomba contra pessoas que, ao seu ver, representavam algum tipo de perigo a vida humana. Desde antes de sua confissão, os EUA - e em certa medida outros países - o conheciam pela alcunha de UNABOMBER, terrorista que deu trabalho ao FBI por 16 anos, assassinando 3 pessoas e deixando gravemente feridas outras 23.

 

Sua vida, é cheia de passagens dignas de um filme, e talvez por isso tenha virado um seriado original da Discovery Chanel também disponível na Netflix: entrou em Harvard aos 16 anos, participou como cobaia de um experimento com objetivo de torturar espiões soviéticos, permaneceu virgem com certeza até os 53 anos, e viveu recluso em um cabana em Montana como uma espécie de Thoreau

 

A série da Discovery retrata sua prisão a partir de um inovador método de análise linguistico criado por Jim Fitzgerald, ao analizar as cartas de Theodore aos jornais e com seu manifesto publicado na tentativa de barganhar a possibilidade de cessar os atentados terroristas. E aqui as coisas ficam terrivelmente cinzas. Isso porque seu manifesto, a revelia do autor terrorista, e embora extremista, merece uma reflexão pormenorizada e atenta. 

 

A síntese de seu livro-dissertação chamado A Sociedade Industrial e seu Futuro tem como argumento principal o fato de que a Revolução Industrial trouxe consequências problemáticas a raça humana. Quer dizer, é verdade que sem a dita Revolução, não teríamos iPhones, PS4, Netflix, Coca-Cola, notebooks, e outras comodidades. Mas também não teríamos escravidão infantil para fabricação de celulares, nem cortadores de cana em regime análogo a escravidão no Nordeste do país, e certamente o Aquecimento Global não estaria colocando em risco UM MILHÃO DE ESPÉCIES neste exato momento em que escrevo me preparando para o último episódio de Game of Thrones...

 

Abre parênteses: você não quer saber o que acontece com a vida neste planeta se um milhão de espécies for retirada de seu ecossistema em um curto espaço de tempo. Fecha parênteses.

 

A maioria das pessoas está limitada a uma vida que se vive antes das 8h00 da manhã e após as 18h00 da noite, também aos sábados e domingos, mas sempre aos poucos, sem exageros porque o exagero não cabe no bolso. Uma vida limitada a comer o que se tem nos mercados: qualquer coisa com bastante carboidrato, alguns poucos grãos, proteína animal suficiente para alimentar uma família em Moçambique e pouquíssimos vegetais. Tudo garantido por agrotóxicos - leia: venenco - cujos nomes são impronunciáveis. 

 

O teor do manifesto que, repito, é extremado, ao menos nos faz lembrar de uma série de pensadores que propõe um tipo de vida mais íntimo consigo mesmo e com a natureza a sua volta. Thoreau, Sêneca, Nietzsche, Sidarta, Diógenes, a lista é imensa. Claro que há aqui um porém terrível e nem um pouco desprezível, pois trata-se de um assassino terrorista. Mas nós não estudamos Heidegger a despeito de sua filiação ao nazismo alemão? E quem ousaria dizer que as suas constribuições em Ser e Tempo podem ser desprezadas, ignoradas?

 

Em um diálogo perturbador da série Kaczynski pergunta ao policial que o capturou o porque de tanta fixação por sua prisão uma vez que mais pessoas haviam morrido em decorrência de coisas como por exemplo, câncer causado por agrotóxicos em quinze minutos de conversa do que o total de suas vítimas ao longo de 16 anos. E infelizmente, o argumento é verdadeiro. Dai a nos fazer pensar o porque alguns crimes nos parecem ser tão brutais e perturbadores e outros não?

 

Slavoj Zizek, pensador esloveno, nos faz pensar nos mesmos itens quando em sua obra Violência, pede que imaginemos quanto tempo voltaremos a nossa rotina insossa depois de sermos expostos ao vivo a porcos criados semi cegos em abatedouros de carne ou a cenas reais de tortura cometida com autorização do Estado. Pouco tempo eu suponho. E a conclusão de Zizek é que em um ponto inconsciente estamos todos aceitamos que um grau de violência seja naturalizado para que os confortos da modernidade ocidental chegue até nós. Quer dizer, se uma criança precisa ser escravizada para que eu possa publicar no Instagram selfies em meu celular, eu aceito. Este é o novo contrato social que firmamos.

 

Pois bem. Isso é doentio certo? Creio que, embora sejamos impotentes contra tudo isso, ao menos, no mínimo, algum tipo de inconformidade deve nos tomar. Obviamente a solução não passa por atos violentos, que dirá terrorismo e assassinato, isso jamais. Mas ao menos algumas noites mal dormidas e uma sensação de angústia eterna devem nos acometer. Pelas pessoas que morrem, que sofrem e que não vivem para que eu possa ligar a lâmpada de meu banheiro, para que a água da minha privada possa levar meus excrementos embora. 

 

Creio que os marginalizados de nossa sociedade merecem, no mínimo isso: nossa indignação moral. E nisso, creio, Zizek e Kaczynski concordariam.  

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