12/05/2019 às 16:26:00

Para que(m) serve Filosofia?

Cinesofia: para que(m) serve a filosofia?

Cinesofia: para que(m) serve a filosofia?

Semana passada saímos um pouco de nosso foco em nossa página do Facebook ao comentarmos sobre a intenção declarada do atual governo em "descentralizar recursos" dos cursos de filosofia e sociologia. Nos posicionamos contrários a medida, respeitando o processo democrático, o que significa dizer que as coisas não acontecem numa democracia "porque sim"; acontecem porque você foi capaz de mobilizar argumentos e pessoas para se engajarem em seu ponto de vista.

Porque democracia é um regime de concessão: todo direito adquirido (de saúde e segurança pública até aulas de filosofia) foram conquistadas pela sociedade ao convencer os seus integrantes de que estes direitos são importantes. Sendo assim este texto tem a missão de esclarecer para que serve filosofia e porque ela é importante. Comecemos.

É de Deleuze, provocador como sempre, uma das definições de filosofia mais interessantes, que vai além do básico "amigo da sabedoria". Diz ele, ao citar Diógenes, o Cão, que "quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo?" 

Quer dizer, ninguém pergunta para que serve um médico. Porque a resposta, dizem, é óbvia: curar pessoas. Ou enriquecer a Bayer/Monsanto. Não importa, esse debate fica para outra hora. De qualquer forma diz-se do médico que sua função merece recursos públicos, dada sua necessidade e importância. Mas e o design? E o publicitário. o marqueteiro? Suas funções também são óbvias? E porque poucas perguntam sobre a serventia de suas profissões? E nutrição? Para que serve um curso que ensina as pessoas a comer... comida?

Obviamente estas profissões são muito mais do que delas diz o senso comum. E quanto a isso todos normalmente concordam. Porque com filosofia é diferente? Porque nós, filósofos e professores de filosofia, temos que justificar nossa razão de ser e existir todo o tempo, o tempo todo, do momento que passamos no vestibular até nossas aposentadorias? Porque esse debate não é novo, veja você. Deleuze escreveu aquelas linhas acima em um livro chamado Nietzsche e a Filosofia, de 1987 (que aliás usei em meu TCC e que a todos recomendo). Quando esta pergunta é feita então, ao invés de responder pronta e simplesmente, é preciso descascar a intenção de quem pergunta, de quem coloca em xeque a função ou serventia da única disciplina capaz de criticar todas as mistificações, todos os mitos.

Sendo assim, é preciso fazer da tolice algo vergonhoso com agressividade (não com raiva nem com ódio, mas agressivamente como um Maradona quando recebia a bola no meio de campo, e avançava sobre zagueiros assustados), denunciando a baixeza do pensamento e deixando claro que a filosofia não serve a nenhum poder estabelecido: nem ao Estado, nem a Igreja. Tampouco a direita ou a esquerda. A filosofia não tem senhor, tampouco súditos. Ela tem livres pensadores.

Nessa liberdade ela se estabelece como uma Máquina de Guerra no campo social, para usar a definição dada por Claúdio Ulpiano, capaz de nos dar condições de lutarmos por nossa subjetividade, por nossos pensamentos, por nossa identidade. A filosofia, ao contrário da imagem que fazem dela, não doutrina, mas liberta da doutrinação. Havendo Marx publicando o Manifesto Comunista, há Adam Smith com Riqueza das Nações. O filósofo lê a ambos, de modo crítico. A filosofia abriga sob o mesmo teto e com o mesmo respeito um conservador como Edmund Burke e um iconoclasta como Guy Debord. Um analítico como Kant e um existencialista como Emil Cioran. Alguém de biografia questionável como Heidegger e outro como Kant, cuja história de vida não desperta interesse em quase ninguém.

A filosofia é uma Máquina de Guerra no campo social munida de argumentos capaz de matar tudo que precisa morrer: preconceito, tolice, baixeza de pensamento. Ela serve ao livre pensar, e por isso incomoda governos e governantes desde quando Alexandre, Imperador da Macedônia, pediu em vão que Diógenes fosse embora de seus domínios, até quando Sócrates foi morto pela nobreza ateniense (especificamente: o poeta Meleto; o rico curtidor de peles, influente orador e político Anitos; e por Licão, personagem de menor importância) em uma farsa jurídica que o acusava de corromper a juventude e duvidar da existência dos deuses, não reconhecendo os deuses admitidos pelo Estado.

Esta Máquina de Guerra entretanto lida com problemas reais, concretos e urgentes.

Somos nós filósofos, quem respondemos a questões pertinentes como se é ou não ético barrar imigrantes em fronteias; se publicidade infantil é aceitável; qual o limite existente entre poder e violência; como resolver questões conflituosas em sociedades complexas; de que forma uma democracia se torna legítima; a qual país deve pertencer um rio que cruza dois países e quais implicações éticas, morais e jurídicas são legítimas quando o país que abriga sua nascente o polui; quais aparelhos institucionais uma democracia deve ter para estabilizar o poder gerado nos processos eleitorais; e etc, os exemplos são inúmeros, quase infinitos.

Nós, filósofos e professores de filosofia, somos urgentes para qualquer sociedade, em qualquer tempo, e nosso trabalho, quando falta, se faz sentir rapidamente, embora eu concorde que talvez você não consiga fazer essa relação, e que disto somos culpados, afinal, qual foi a última vez que fomos a público explicar didaticamente o que fazemos em nossos simpósios e mesas redondas ou trancados em quartos com livros quase impossíveis de se compreender, publicando artigos que poucos leem?

Está na hora de usarmos esta máquina de guerra com mais frequência. Por isso peço que se você chegou até aqui na leitura, e achou o texto interessante, o compartilhe. Nós do Cinesofia estamos fazendo nossa parte para divulgar filosofia, cultura e humanidades em geral, mas não seremos bem sucedidos sem ajuda.

Grande abraço e não se esqueçam: ninguém solta a mão de ninguém.

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