12/05/2019 às 16:36:00

Game of Thrones e a ralé

Cinesofia GoT

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Pegamos o trem do hype. Quer dizer, mais ou menos. Aqui no Cinesofia estamos dividos: eu e a Bruna estamos acompanhando FORTE a última temporada, enquanto o Jeronimo e o Marcelo, nosso editor do podcast, ta mais ou menos. Nosso Editor Bolado, David, tá bem mais ou menos também. Luiz e Jean, que volta e meia gravam nosso podcast são um mistério.

De qualquer forma, quarta feira sai nosso vídeo no Youtube sobre a série, e nele falamos sobre um tema óbvio, mas de um ponto de vista bem nosso. Óbvio porque a série exala política, e esse é o tema do nosso vídeo. Mas ao contrário da maioria, não acreditamos que ela apresente um retrato fiel da política palaciana, típica do período medieval europeu. Descobriremos porque.

Política é um tema bastante recorrente na história da filosofia ocidental e oriental. Embora os pré-socráticos não tenham uma preocupação política nos termos que hoje oferecemos, Platão e Aristóteles apresentam tratados igualmente complexos e polêmicos ainda hoje. No oriente temos a obra Os Analectos, de Confúcio, ainda bastante presente no pensamento ético-político chinês. Aliás, seria bom lembrar também que há muito dos conceitos aritotélicos de política presente nos dias de hoje. De qualquer forma o mundo avançou e muito desde então.

Agostinho de Hipona, Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Kant, Marx, Habermas, Fraser... a lista de autores de filosofia política que vimos surgir nos últimos dois milênios, cada qual com suas contribuições e limitações. Hoje retornamos a uma autora da qual gostamos muito, Hannah Arendt, para compreender seu conceito de Ralé.

Ralé, para a autora, seria um grupo de pessoas cientes dos problemas de sua sociedade, porém sem capacidade analítica e/ou crítica, de compreender profundamente as origens do mesmo, ou ainda, sua complexidade. Seria alguém que sente que nosso país sofre com a corrupção, porém não sabe dizer se nosso problema é somente esse, tampouco como começar a resolvê-lo concretamente.

Uma vez incapazes de compreender a complexidade e amplitude dos problemas do mundo a sua volta, a Ralé acaba por acolher uma personagem que explique esse mundo de maneira simplista, simplória (muitas vezes falsa ou equivocada), e se comprometa a solucionar os problemas que a Ralé sente existirem. Os exemplos que a autora fornece de Ralé, são a população alemã e russa que acolhem Stalin e Hitler como aqueles que irão solucionar os problemas pelos quais passam. A história nos mostra os problemas desse tipo de decisão.

Disto decorre o messianismo, elevando a figura do governante a alguém acima do bem e do mal, e que portanto não pode ser julgado da mesma maneira que o restante de nós. Nos casos citados, os líderes acolhidos pela Ralé, personificam os problemas, elegendo grupos inimigos como por exemplo os judeus e comunistas na Alemanha nazista, ou os nobres e posteriormente os trotskistas na Rússia.

A falta de consciência política deste grupo faz com que ele abra mão de seu papel de protagonista nos regimes sociais democráticos, abrindo espaço para a implementação de ditaduras através das vias legais. Há diversos casos de ditaduras que foram implementadas ao redor do mundo sem que um tiro de fuzil fosse disparado. Uma vez que a Ralé deixa o espaço público, instala-se um regime de violência - lembrando que Artendt tem um conceito bem particular de violência, que não envolve necessariamente agressões físicas ou verbais - permitindo todo tipo de horror.

Em Game of Thrones, vimos desde a primeira temporada um conflito se desenhando entre as Casas Stark e Lannister, com os Targaryen correndo por fora. Assassinatos, traições, estupro, tortura... todo tipo de ferramenta foi usada durante as guerras travadas sob diversos pretextos: a emancipação do Norte; o êxodo dos Povos Livres; a unificação dos Sete Reinos; a traição dos Greyjoy. O espectador acompanha como os líderes de suas casas organizam ataques, sítios, emboscadas, defesas, conclamando casas nobres vassalas, pagando exércitos de mercenários, propondo casamentos e alianças e movimentando os exércitos e espiões por entre as fronteiras dos países, como quem mexe em pedras de xadrez em um tabuleiro.

A série também nos mostra como a população sofre nessas idas e vindas. Fome, miséria, assaltos. A cada combate travado, muda-se o panorama da série, e a população muda junto. A única coisa que não muda é que Westeros é palco de um povo apático, apolítico, emburrecido, anestesiado que em nada participa da vida pública, esperando que o senhor da Casa sob a qual vive, o salve do Inverno ou da guerra.

Falta a Ralé de Westeros uma fagulha do povo francês do século 18, que por muito menos tomou a Bastilha, guilhotinou a torto e a direito, provando que não apenas nobres e clérigos podem ser cruéis e injustos: o povo também consegue. Mas acima de tudo, são cruéis e injustos por escolha, e por isso sofrem consequências, boas ou ruins, de terem interferido eles próprios na história de suas vidas.

Me incomoda que durante toda a série não tenhamos visto uma única rebelião de escravos como a de Spartacus, nada nem sequer parecido com a Revolução Russa, Primavera Árabe, Revolução de 1848, Guerra dos Farrapos, etc, etc.

O povo manso e apático de Westeros parece tão real e vivo quanto os dragões feitos por CG para compor a paisagem e a fotografia da série, a reduzindo a um inteligente, porém pobre, jogo de palavras e estratégias palacianas.

E é uma pena. Adoraria ver um plebeu qualquer mudando completamente o rumo de negociações de trégua entre rivais ou frustando planos traçados por Tyrion. Mas bem, não veremos. Ao invés disso, zumbis e dragões. O que convenhamos, é massa também.

PS. Exceção honrosa a Mindinho, um plebeu que ascendeu através da luxúria, da mentira, do sexo e da perversidade.

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