08/07/2019 às 14:42:00 | por Rafael Alves

Stranger Things : anos 80, não é Pokémon, é stress concentrado - por Rafael Alves.

A velhice tem sinais inconfundíveis: cabelos brancos, rugas, perda de força muscular. E no caso dos filósofos, a rabugice, o cinismo, a falta total e completa de paciência. 

 

Tentando assistir a terceira temporada de Stranger Things eu, que sempre me sinto com 83 anos de idade, passei a me sentir um bicentenário. 

 

Explico.

 

No geral, até por causa da minha profissão, - professor de filosofia - minha tendência é a de manter os horizontes abertos. Há exceções, claro, pois sou humano. Não consigo e nem quero abrir meus horizontes musicais, por exemplo. Estou escrevendo este texto e ouvindo o Boss. Se você nasceu no fim dos anos 90 ou começo dos 00, será mais fácil buscar no Google por Bruce Springsteen. E minha playlist é um asilo: além do Boss, há Bob Dylan, Iron Maiden, Creedence, Grand Funk Railroad, Tim Maia, Racionais, David Bowie, Iggy Pop, Soundgarden e etc. Nesse etc entra MUITO Pearl Jam e uma ou outra banda pós anos 00 como Syd Matters - ouça logo To all of you -, Kings of Leon, The Withe Buffalo, Matanza e Matanza Inc. 

 

Mas justiça seja feita, não é porque o novo é ruim e o velho é bom. É porque eu sinto cada vez menos conexão com a sociedade que se desenhou pra nós vivermos. Mas seja sincero você também e pare o que estiver fazendo. Coloque seu celular no bolso por um minuto e olhe em volta: ao menos parece que alguma coisa faz sentido?

 

Eu estou em um posto de gasolina enquanto escrevo junto com o Boss. Passo o dia inteiro em Canela porque leciono pela manhã e a noite participo de uma reunião na escola onde leciono para discutir planejamento de aula com meus colegas de área. Como eu moro em a uma hora e meia do trabalho, não compensa ir e voltar. Aproveito  o tempo que tenho para escrever, me informar e estudar. E aqui, onde estou há um rapaz que há quinze mins olha para o celular sem parar; um grupo de amigos rindo de alguma coisa; as pessoas na fila do caixa bocejam perdidas no tempo e no espaço; os atendentes parecem não fazer a mínima ideia do que estão fazendo e os frentistas se entregaram ao tédio e a rotina.

 

É como se esse pedaço de história da minha vida estivesse sendo escrita por Samuel Becket. Se fosse um poema, seria um poema de Stéphane Mallarmé (“Pois o vício a roer minha nata nobreza / tal como a ti marcou-me de esterilidade / mas enquanto teu seio de pedra é cidade”). Ou um quadro de Magrite, tão bom quanto Dalí, mas tão esquecido.

 

+++ Leia também: O PODER DA NOSTALGIA EM STRANGER THINGS

 

Ou simplesmente o Absurdo de Camus. Todo dia o mesmo dia, toda hora a mesma hora, e mesmo tudo podendo ser diferente, nunca é. Somos todos Sísifo cada qual com uma pedra que é quase sempre a mesma pedra: contas a pagar, um carro pra trocar, a casa pra aumentar, e a Europa e a Disney pra conhecer, pra tirar fotos iguais, aplicar o mesmo filtro e lotar o Instagram, que é pra vender a imagem de que finalmente se encontrou a felicidade que só as notas de cem podem trazer.

 

E o que tudo isto tem a ver com Stranger Things?

 

Tem a ver que não sei se ela sempre foi, ou se ela se tornou a série enlatada, para despertar sentimentos e sensações de um passado que nunca existiu além das histórias formatadas pela Warner Chanel ou Globo Produções. Um absurdo, o non sense.

 

Eu vivi um pouco do fim dos anos 80 e começo dos 90. Me sinto muito mais próximo da Geração Vazia do que da famosa – e mimada – Geração Y. Aquele ar mágico de felicidade e romantismo tolo, cheio de música retrô wave só existia na Sessão da Tarde e no Cinema em Casa. Eu e meus amigos da época sabíamos todos que o mundo ia mal pra caralho. Em casa nossos pais todos estavam desempregados ou subempregados, com brigas intermináveis sobre coisas como pegar mais de um pedaço de carne na hora da janta ou muito leite no café da tarde.

 

Naqueles tempos, volta e meia “eu me sentia às vezes meio pá, inseguro / Que nem um vira-lata, sem fé no futuro”[1].

 

Sei lá se a série foi feita pra mim. De uns tempos pra cá virou lugar comum dizer que o produto não é ruim, “ele está mirando um novo público”. Sei. De qualquer modo, se for este o caso, que merda duas vezes. Porque essa molecada vai crescer achando que os 80’s foram um conto de fadas, e aqui, no Brasil, da ponte pra cá, não foi não. A chapa esquentava. Pelo menos os anos 80 e 90 que vivi. Aqui é Capão Redondo "tru" / Não Pokémon / Zona Sul é invés, é estresse concentrado / Um coração ferido por metro quadrado”[2]

 

Vai ver que o problema não seja mesmo a série, mas o fato de que eu ando mais enfurecido do que o de costume com tudo que se passa e acontece. Sempre tive essa tendência. Ou vai ver eu estou certo e se você tiver um tempo sobrando, deixa de assistir Stranger Things e assista Guerras do Brasil. doc, que olha, é boa pra caramba.

 

Mas isso sou eu falando também. E minha opinião vale tanto quanto a sua, ou seja, nada.

 

 

 

 

 

   

 


[1] Vida Loka Part. 1.

[2] Vida Loka Part. 2

 

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