18/08/2019 às 18:38:00 | por Rafael Alves

Sobre a brevidade da vida - ou: O que a Morte me ensinou

Não se trata de uma novidade, ao contrário. Sêneca, quase dois mil anos antes de mim já o havia dito: a vida é breve. Ainda assim, parece que não apenas nada mudou, como o erro de não percebermos a vida se acentuou.

 

A quadro pintado pela dualidade entre morte e vida usa como tinta o espaço entre um e outro. O que podemos retirar de vida cabe dentro do tempo que temos disponível, e este, é breve.

 

Ainda em Sêneca, é ele quem diz:

 

“Por que reclamamos da Natureza? Ela se mostrou benevolente: a vida, se souberes viver, é longa. Mas a insaciável ganância domina um; outro, desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos. [...] Alguns, sem terem dado rumo a suas vidas, são flagrados pelo destino esgotados e sonolentos, de tal maneira que não duvido ser verdade o que disse, como se fosse um oráculo, o maior dos poetas: "Pequena é a parte da vida que vivemos". Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.”

 

É deste tempo que quero falar hoje, e do que podemos tirar dele, porque a vida costuma ser grosseira com todos nós e tenho razões para supor que é do saber sobre a Morte que o tempo ganha outro contorno.

 

Eu e a Morte

 

Nada na vida me ensinou mais que a Morte, seja com ela em si, seja com seus recados de existência. Foram cinco os momentos, e em cada um deles o tempo de Vida se transformou em algo diferente. Meu primeiro contato com a Morte foi com meu avô tendo um infarto aos meus pés, quando eu era um jovem Rafael sem barba, aos 6 anos. Na época meu pai morava em São Paulo procurando emprego, e o resto de minha família no interior do estado onde era mais barato. Era um tempo onde meu avô fazia armadilhas de pássaros para ver se conseguíamos carne para comer. Meu pai veio nos visitar no fim de semana e acabou ficando um dia a mais porque eu tive febre. Na noite desse dia a mais meu avô teve o infarto e meu pai o salvou massageando seu coração. Na minha cabeça, minha febre salvou meu avô, meu pai era um herói e eu aprendi que há males que vem para o bem.

 

Quando adolescente eu tive um grande amigo, desses que a gente chama de irmão, e come na casa da gente, e dorme na casa da gente, e a mãe da gente chama de filho até. Igor era seu nome e ele era meu irmão até o dia em que acabou ficando com minha namoradinha da época. Eu tinha 16 – ele era bem mais velho – e era tolo como qualquer um nessa idade, talvez um pouco mais, e rompemos nossa amizade até que, anos mais tarde, por causa de alguns amigos em comum, nos reencontramos e colocamos a história em pratos limpos. Conversamos por horas e concordamos: como fomos idiotas, todos os envolvidos. Abraços dados, prometemos recuperar os anos perdidos e eu me mudei para o Rio Grande do Sul feliz com o ocorrido. Até que ele foi diagnosticado com uma doença raríssima na qual o coração cresceu mais que o devido e ele morreu sozinho, antes dos 30, devido a uma parada cardíaca, indo atender o rapaz que entregava um galão de água em sua casa. Aprendi que perdoar é preciso.

 

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Então fiz sofrer minha tia-avó, dona Maria Antônia. Ela criou a mim, minha irmã, minha mãe e até ajudou a criar meu pai, depois de velho. Ela era um anjo na Terra, um farol de luz maravilhoso, e tanto me ensinou com amor, humor, chamando polenta de torta, costurando dia e noite para pagar as contas e abrigar a todos que precisavam de abrigo. Seu marido, ao contrário, não me trazia tanta alegria nem tanto amor. Então quando ele faleceu no dia em que eu ia me encontrar com um crush da época, decidi, cruelmente, não ir ao seu velório. Fui avisado por minha mãe sobre o quão não-humano era minha decisão, mas é uma característica dos idiotas não ouvir bons conselhos, e eu era idiota. Não ouvi, não fui, e minha mãe disse não saber o que responder quando ela perguntava: “Cadê o Fafá?”. Cai em mim e chorei como se isso consertasse alguma coisa. Não conserta. Reuni coragem para me desculpar e pedir seu perdão e tentar consertar meu coração, mas em uma consulta de rotina minha tia-avó acabou tendo uma complicação, entrou em coma e faleceu. Aprendi que não se demora para dar o perdão, tampouco para pedi-lo.

 

Meu primo Juliano aos vinte e poucos anos, distante de mim quase mil quilômetros convidou a toda família a seu casamento. Decidi que não iria, estava sem dinheiro, sem tempo e cheio de trabalhos para fazer na faculdade, de olho em alguma pesquisa para enriquecer meu currículo. Então, na semana de seu casamento, ao fazer um retorno errado em uma rodovia, um caminhão bateu em seu carro. Morreu ele e sua noiva. A nossa família inteira desmoronou, e eu, que não ia ao casamento, fui ao velório mais triste que já fui na vida. Aprendi que tenho que me estar ao lado de quem amo nos dias bons, não apenas nos ruins.

 

Então minha mãe teve câncer no reto. A ela deram três meses de vida. Eu já morava no RS, ela em SP. Havia acabado de começar a trabalhar como professor pelo Estado, e durante os primeiros quatro, cinco, seis meses, você não recebe. Todo dia era um desespero, eu não tinha a mínima condição de ir visita-la, e quando o telefone tocava eu sempre esperava pelo pior. Vivi um pesadelo, mas acordei. Após radioterapia, quimioterapia, algumas cirurgias, colostomia minha mãe está viva e eu aprendi que milagres acontecem, além de ser um filho melhor.

 

Agora meu pai tem um câncer na tiroide, como eu havia dito no último texto. Ele é meu herói. Um maior do que qualquer um que você encontrar no cinema, nos livros, nas HQ’s. Dorival Alves de Oliveira é um homem de outros tempos, de tempos heroicos. Cada fibra dele sabe suportar a carga gigantesca que a vida deposita sobre todos nós. Mas ele não é perfeito, afinal é um herói, e nenhum herói o é. O defeito de meu pai, em minha opinião, é sua visão completamente equivocada da política, contrário a tudo que eu penso por causa de meus mais de dez anos estudando o tema junto com alguns dos melhores professores do país. E eu aprendi que política não é nada.

 

Isso mesmo, nada.

 

Por mais importante que seja debater, estudar, pensar e refletir sobre política, tudo isto não significa nada diante do laço que me une ao meu pai. Aliás, não é nada diante do laço que nos une como seres humanos. A dimensão humana, daquilo que somos e nos tornamos – ou deixamos de nos tornar – no decorrer da vida em direção a morte, é muito, mas muito maior do que qualquer discussão besta sobre o partido A ou B. O país, sabemos, vai mal. Aliás, o mundo inteiro vai mal. Mas estou seguro que não é a política que irá mudar isso.

 

É o laço que nos une e nos torna humanos. Bem sei que há quem discorde e não queira reatar os laços, refazer nossa ligação profunda enquanto humanos. Há quem se considere mais que humano, e quem considere o outro menos do que isso. Ambos estão errados, mas todos temos direito ao erro. Se você consegue entender isso, é seu dever ceder o perdão se for o caso, ou pedir perdão se estiver no lado oposto.

 

Foram alguns anos estudando o assunto em autores complicadíssimos como Habermas, Foucault, Arendt, Marx, para descobrir com a vida, observando de modo atento o passar do tempo, que há mais. Jogue fora todas as suas convicções políticas, principalmente se você estiver pautado por algum grupo identitário, seja à esquerda, seja à direita. Se desfaça disso porque ninguém tem resposta, estamos todos perdidos.

 

A única certeza é que a vida passa rápido, passa ligeiro, e a Morte nos ronda a todos, todo o tempo. E a cada visita que ela nos faz, se soubermos compreender o que ela nos diz, vamos compreender que ser humano é mais importante que ser negro ou branco, homem ou mulher, hétero ou homo, de esquerda ou direita, capitalista ou comunista.

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