21/06/2019 às 16:46:00 | por Rafael Alves

Quando vamos falar sobre o quão tóxico o Instagram é? - Por Rafael Alves

Estou com a cabeça a mil, trabalhando ao mesmo tempo com o Cinesofia e também preparando minhas aulas para o Ensino Médio como professor que sou. As vezes as duas coisas se entrecruzam, as vezes não, e quando acontece, eu agradeço, porque resolvo duas coisas de uma só vez. 

 

Então, neste momento, estou tentando não pirar enquanto pesquiso sobre Erich Fromm, Slavoj Zizek, Frantz Fanon e Maquiavel depois de ter tomando mais ou menos meio litro de café preto e sem açúcar. A cabeça deu um nó e a ansiedade aqui, tá subindo pelas paredes. Ai fui espairecer vendo bobagem na internet e, óbvio, pirei mais ainda, vendo num site que a moda agora é instagrammers tirarem foto em CHERNOBYL. É, você leu certo. O que é um cancêr por radiação, quando se pode ter likes? E ai nasceu este artigo. Afinal, quando vamos botar em pauta a toxicidade do Instagram? Já colocamos o Twitter e o Facebook no divã, e será que não chegou a vez da rede social cuja função costuama ser produzir o falso? 

 

+++ Leia também: A LIGAÇÃO ENTRE SEU ADIDAS NOVO E A TRAGÉDIA DE CHERNOBYL

 

Explico: Twitter e Facebook, cada qual tem seus problemas que vão desde textões que ninguém quer ler se não for pra tretar até o lacre, a maldição do século 21 - além do jovem classe média com um ukulele nas mãos estragando músicas para conseguir like. Já o Instagram cria o falso porque com raras exceções, tudo lá é falso. As poses, a luz, sorrisos, legendas. Isso pra não lembrar que as fotos possuem filtro, um tipo de máscara da realidade. 

 

E sapeando pela net você encontra sites e blogs tipo o Dicas de Mulher, com uma lista de dez blogueiras de moda que você PRECISA seguir. Gente como Camila Coelho porque além de seus "looks prontos para serem copiados, a blogueira ainda dá em seu Instagram algumas dicas infalíveis de beleza e, por morar nos Estados Unidos, você tem a oportunidade de ver lugares diferentes, com muita neve, looks com casacões". Sacou? Prontinho pra ser copiado. Tipo um fast food de pessoas, uma esteria de produção de pessoas. No final cada garota termina uma Camilinha Coelho prontinha, correndo por ai. Há também Nati Vozza, seguida por quase 900 mil pessoas, que é "super estilosa e está sempre fazendo looks incríveis, misturando estampas, cores e mostrando que para ter estilo é preciso ter personalidade" 

 

Ai eu, imbecil que sou, buguei. É pra copiar os looks de alguém ou ter personalidade própria? Os dois não dá, certo? Mas Nati Vozza é mais do que uma casca vazia maquiada e com roupas escolhidas por uma grande corporação! Ela "acaba de ser mãe de um menino chamado Bernardo. É também por lá que ela tem compartilhado algumas dicas de maternidade e o seu sentimento de ser mãe de primeira viagem". Olhem o rosto de mãe de Nati: 

 

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Igualzinha a sua mãe, acordando as 3h da madrugada com você acordando com cólica, após uma jornada de trabalho de 8 horas indo e voltando de busão. 

 

Agora deixando a ironia de lado, que tipo de pessoa deliberadamente torna o filho um produto para ganhar like, seguidor e patrocínio? Me ensinaram quando criança que ser mãe ou pai era um lance sagrado. O que só mostra o quanto eu estou velho... 

 

Poderia falar dos influencidores digitais tipo a RêVivendo ou o Vamos pra onde? com as mesmas fotos: a jovem mística, de pernas cruzadas admirando a imensidão da natureza, estratégicamente posicionada na foto de modo a despertar nos seguidores o desejo de "ter uma experiência de vida". 

 

Daí eu estar lendo Erich Froom, para ver se eu entendo essa sandice toda. Diz ele em sua obra Estudos sobre autoridade e família que:

 

"os fênomenos psicológicos devem ser compreendidos como processos de adaptação ativos e passivos do aparelho pulsional à situação econômica e social . O aparelho pulsional é dado biológicamente, mas ele é suscetível de ser modificado pelas condições econômicas que o modelam." (Rouanet, 1988, p. 51)

 

Para quem nunca estudou nada sobre psicanálise, aparelho pulsional designa um impulso energético interno que direciona o comportamento do indivíduo. Simplificando um pouco, pode chamar isto de vontade. E o que Fromm está nos dizendo é que nossas vontades de agir desta ou daquela maneira é moldado pela nossa situação social e econômica. Daí o motivo de ter tanta gente de classe média se vestindo da mesma forma, tirando fotos da mesma maneira, tocando Beatles no ukulele, com os mesmos penteados, tirando fotos com as mesmas poses, querendo visitar os mesmos destinos na Europa e etc. Só tem um problema, óbvio: a menos que você seja bancado por alguma grande corporação - que talvez já tenha sido autuada usando trabalho escravo como a Zara, marca de roupa favorita da dupla instagramer Mimi Postigo e Lauren Eggertsen para quem "é difícil fazer um look onde pelo menos uma das peças não sejam Zara" - você não irá conseguir ter essa vida dos sonhos vendida por essa gente. E essa fábrica de desejos opera em nós todos 100% do tempo, e faz com que esses desejos se tornem normais e que pessoas como eu, capazes de viver um ano sem comprar uma camiseta, sejam vistos com olhos desconfiados. 

 

+++ Leia também: SOBRE AS MUDANÇAS QUE SOMOS CAPAZES DE FAZER

 

Ao menos antes sabíamos quando estávamos vendo uma foto de algum momento feliz e quando víamos uma propaganda numa revista ou num outdoor. Hoje tudo se misturou, público e privado, pessoas e empresas, e cada corpo é um espaço publicitário a venda, desde que, claro, este corpo tenha o formato de sempre: homens musculosos, brozenados, de preferência com olhos claros e cabelos curtos ou então o modelo outsider com cabelos longos em coque samurai, magro - mas não esquelético - e rosto levemente andrógino. Para as mulheres é a regra do âo: coxão, peitão, bundão, quase sempre a base de silicone, que é para despertar ereções no público masculino. A modelo tipo b tem que ser alta, magérrima, cabelos longos e volumosos com preferência a olhos claros e botox na boca, para deixar os lábios carnudos. Mas justiça seja feita: hoje em dia a publicidade percebeu que pode lucrar com outros corpos femininos e masculinos, desde que o produto venda. 

 

E isso tudo é terrível. De acordo com uma pesquisa publicada pela Royal Society for Public Heath, "as plataformas que supostamente ajudam os jovens a se conectarem podem estar alimentando uma crise de saúde mental" sendo o Instagram a mais prejudicial a saúde mental. Não por acaso a venda de medicamentos antidepressivos e estabilizadores de humor dobrou, de acordo com levantamento realizado pela IQVIA, empresa norte-americana de auditoria e pesquisa de mercado farmacêutico. Somos um dos países campeões neste quesito, ao mesmo tempo em que o sonho de cada vez mais crianças, adolescentes e jovens adultos é ser algum tipo de influenciador famoso em alguma rede social qualquer vendendo mentira e ilusão com certa frequência e honrosas exceções. 

 

Acredito que chegou a hora de debatermos isso porque é necessário tanto socialmente, quanto clinicamente. Mas aqui é Brasil né?

 

Provalvemente este artigo ficará restrito a um número limitado de pessoas e a vida seguirá seu rumo em direção a próxima curtida e a próxima dose de Diazepam. 

 

 

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