08/06/2019 às 20:42:00 | por Rafael Alves

Qual o papel da filosofia no ensino básico (part. 1) - Da natureza combativa da Filosofia em Sócrates

Nesta quarta, na aula da semana, apresentei um pouco sobre minha visão a respeito da disciplina que leiono há 13 anos. A pergunta que me fiz e tentei responder foi a que nestes 13 anos sempre precisei responder, a pergunta que não cala jamais: qual a importância da filosofia no ensino básico (fundamental e médio)? 

 

Longe de mim querer esgotar este assunto. O máximo que posso fazer, e faço, é aquietar meus pensamentos sobre. E as vezes nem isso. Porque antes de responder para quem quer que seja, a primeira pessoa a ter essas questões na cabeça, rondando com frequência, sou eu. E como este debate está na sociedade, lá vou eu dar meu pitaco. 

 

Começo lembrando aquele que sintetiza o filósofo para o senso comum, Sócrates. 

 

Apologia de Sócrates

 

Sócrates guerrerou na famosíssima Guerra do Peloponeso, um conflito que modificou bastante a geopolítica grega, envolvendo as duas maiores potências do mundo antigo, Atenas e Esparta ocorrido entre  431 a.C. e 404 a.C. Filho de pais humildes, chegou a trabalhar como escultor junto ao pai na infância e juventude, mais atrapalhando do que ajudando devido a sua falta de habilidade. Com o falecimento do pai herdou uma significativa quantia de dinheiro que o possibilitou uma vida adulta relativamente tranquila. Casou-se com Xantipa e provavelmente teve dois filhos, Sofronisco e Menexeno. Arístoles, entretanto, citado por Diógenes Laércio, teria afirmado que ambos eram filhos da segunda esposa de Sócrates, Mirto. 

 

De qualquer forma, Sócrates fez fama em Atenas como um habilidoso debatedor capaz de fazer as pessoas a sua volta pensarem de formas até então desconhecidas. Sua pergunta "Como devemos viver" pode-se considerar o nascimento do pensamento político de Platão e por consequência de quase toda o Ocidente. E as perguntas de Sócrates, tão simples quanto profundas agitaram as ruas de Atenas. O que é Justiça? O que é o Bom? O que é ser corajoso? Até hoje a maioria de suas perguntas permanecem despertando debates intensos, em especial, aquela sobre o que é Justiça em um país como o nosso. 

 

A ideia socrática era a de demonstrar ao seu debatedor que nada sabia sobre o tema a ser dabatido, e assim fazer-se compreender que admitir a própria ignorância é a mais profunda verdade a ser alcançada no início de qualquer investigação. Só sei que nada sei, lembra?

 

Perguntando, debatendo e questionando autoridades locais, Sócrates despertou o incômodo de ao menos três atenienses de destaque: Ânito, político democrata cujo filho era aluno de Sócrates, e que costumava caçoar dos deuses do pai; Meleto, poeta e advinho que representava sua classe que costumava sofrer com os questionamentos de Sócrates e Lícon, retórico e professor que representava uma classe igualmente questionada.

 

O caso todo é descrito por Platão em sua poética no livro publicado no Brasil chamado Apologia de Sócrates, composto de uma tetralogia de diálogos: Eutífron, em que vê-se o filósofo, ainda livre, indo para o tribunal a fim de conhecer as acusações que lhe foram movidas pelo jovem Meleto; a Apologia, com a descrição do processo; o Críton, com a visita de seu amigo mais querido ao cárcere; o Fédon, com os últimos instantes de vida e o discurso sobre a imortalidade da alma.

 

Minha exposição até aqui sobre Sócrates é para lembrarmo-nos de que aa Filosofia não é um saber como outros tradicionais. Ela é, em sua natureza desde o nascimento, combativa, jamais reativa. A Filosofia não espera ser incomodada, ela primeiro incomoda. Geralmente, muito.

 

A Filosofia não respeita autoridade alguma que não o argumento. Seja adulto ou criança, aluno ou professor, pouco importa. Argumentos não tem idade, cor, sexo, religião, nacionalidade. Um argumento é um argumento e é apenas isso que a Filosofia respeita.

 

Dito isto, a Filosofia tem se mostrado problemática desde sempre, e é um sinal a ser investigado quando ela não incomoda poderes estabelecidos, porque em todo regime politico há injustiças, desigualdades, problemas éticos. E o filósofo que se prese questiona, incomoda, sem se importar se é o político A ou B, do partido C ou D. É preciso que a tolice se envergonhe perto da Filosofia, como dizia Deleuze.

 

No próximo artigo concluo este que você acabou de ler e mostro o papel desta disciplina que é combativa desde seu nascimento. Até lá.

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