28/06/2019 às 15:47:00 | por Rafael Alves

Porque o vídeo de Fábio Assunção viralizou? - Por Rafael Alves

A cena se repete. Algum famoso faz algo constrangedor, é filmado e divulgado como se notícia fosse. Como esquecer a famosa manchete nos informando que Caetano Veloso estacionava seu carro no Leblon? 

 

 

Ou que Cauã Reymond conversa no celular enquanto passei no Rio.

 

 

E que Gisele Bündchen se protege do frio.

 

 

Sedento por porcaria, semelhante a um viciado em crack andando pelas ruas atrás da droga, está o brasileiro médio, nos grupos de zapzap caçando desgraças e tragédias para ver, rir, compartilhar e comentar. A da vez é a de Fábio Assunção, visivelmente alterado junto a algumas mulheres. Acendeu o rastro de pólvora da baixeza. Vamos entender isso melhor com a ajuda de Guy Debord, filósofo francês, autor da obra - e do conceito - de Sociedade do Espetáculo.

 

Sociedade do Espetáculo

 

O argumento principal de Debord é o de que as imagens viram mercadorias a serem vendidas e trocadas, e que nossa relação com o mundo é mediada por essas imagens. Como somos bombadeados dia e noite com imagens - e com cada imagem contendo uma ordem subjetiva - a crítica de Debord é a de que por trás de cada imagem veiculada há uma relação de poder estabelecida. Por exemplo, o filme "Eles Vivem", que já foi analisado por Zizek, no qual o personagem põe um óculos e passa a enxergar a real mensagem por trás da propaganda. Então quando ele olha para um outrdoor com uma mulher de biquini com os dizeres "Venha para o Caribe", ele enxerga "Case e reproduza". No dinheiro ele vê a inscrição: "este é o seu Deus". E por ai vai. 

 

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O ponto de Zizek no filme é o de que essa relação nossa com o mundo através das propagandas, e portanto das imagens, nos faz viver presos a um modelo ideológico do mundo que nos diz: "seja você mesmo", desde que você se pareça com um(a) blogueiro(a) do Instagram. É como percebemos a ditadura infiltrada dentro da democracia. 

 

Este é, mais ou menos, o argumendo de Debord quando ele afirma que além das imagens nos transmitirem mensagens, elas são um instrumento de poder na luta de classes em uma sociedade capitalista. De acordo com Cláudio Novaes Pinto Coelho, professor da Faculdade Cásper Líbero, "o que permite a caracterização do capitalismo como a sociedade do espetáculo é o caráter cotidiano da produção de espetáculos, a quantidade incalculável de espetáculos produzidos e seu vínculo com a produção e o consumo de mercadorias feitas em larga escala".Sacou?

 

E as redes sociais subverteram de tal modo nossa vida cotidiana que a crítica se perdeu. Quer dizer, quem aqui REALMENTE crítica o modo como as redes se apropriam de nossas fotos, vídeos, para nos vender um modelo de vida fútil, tolo, já que, "o poder espetacular manifesta-se agora de forma integrada, já que desapareceram os movimentos sociais de oposição, que se assimilaram à sociedade capitalista e não defendem mais sua superação"? 

 

E isso nos leva ao caso Fábio Assunção.

 

Rolou as imagens dele com as mulheres, ele provavelmente sob efeito de alguma substância, e as imagens a venda se espalharam, causando constrangimento a ele e aos familiares. A pergunta é porque essas imagens correm, porque elas despertam interesse, e o mais importante, que tipo de mensagem elas passam. 

 

Se Guy Debord e Zizek estiverem corretos como eu acredito que estão, o que está venda é um modelo de vida além do próprio Fábio Assunção. Sua imagem vale cliques, e cliques significam audiência, o que tornam os espaços publicitários dos sites mais caros. Vende-se a tolice para com ela lucrar. E se a tolice gera lucro, o que se ensina ao consumidor é consumir imagens tolas. Cria-se gado para dar a ele grama e capim para pastar. 

 

Como deve ter ficado óbvio, o gado é você, mugindo pra lá e pra cá. Mas talvez você me diga que não viu o vídeo do Fábio Assunção. Que bom. Mas o vídeo com o Fábio Assunção é o típico vídeo "celebridade ou sub-celebridade X faz a coisa vexatória Z que é engraçada/vergonhosa/divertida". 

 

Claro que há diferença entre Fábio Assunção filmado na situação em que foi por trazer a ele um constrangimento desncessário, já que ele luta contra a dependência química e isso não deveria ser piada. Mas o ponto agora não é ele, é você.

 

Repensa ai, sozinho, qual tipo de vídeo você anda consumindo. Quem são as pessoas que você segue no Instagram, no Twitter, no Facebook? Será que algum dia vamos enjoar de ver as fotos do fulano/fulana nas mesmas poses de sempre, vendendo um sonho impossível? Quando terá fim as fotos de mulher de biquíni fazendo fazendo bico? Ou a do cara sem camisa, com o abdome sarado? A resposta óbvia diz que isso acontece pela sexualização do corpo. Mas eu odeio a resposta óbvia porque ela, geralmente, nada responde.

 

Na minha cabeça, por causa das leituras de Guy Debord, eu estou propenso a acreditar que o caso é, como disse acima, a construção de um modelo de vida correto e admirado, e um modelo de vida errado, e daí, estamos todos autorizados a rir e humilhar. 

 

E isso, convenhamos, é no mínimo tolice. Ta na hora de crescer. 

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