17/06/2019 às 15:50:00 | por Rafael Alves

Porque o Cinesofia não se envolve nessa briga entre direita e esquerda

Eu sempre digo que o Cinesofia é um site que corre por fora nessa briga entre direita e esquerda.

 

Tratamos de temas políticos por natureza, como é o caso da filosofia, cinema, artes e literatura que ecoam e recebem eco do campo social. Tudo que acontece no campo político flui e reflui para dentro dessas áreas, as alterando ora para melhor em raríssimos momentos, ora para pior, como vem acontecendo nos últimos anos. Só por favor não me interpretem mal: os adjetivos acima não correspondem ao melhoramento ou não desses campos de estudo, mas sim ao seu atual estado. Quer dizer que em alguns momentos, em decorrência de processos políticos, essas áreas têm sua existência mais pacíficas, em outros momentos, sua existência é mais conturbada.

 

Não sou cego para o óbvio. Sou professor de filosofia há treze anos, e sei na própria pele quando a minha área está mais pacificada e quando não. Nesse momento da História em que escrevo, ouvindo Blowin’ In the Wind do Bob Dylan, no exato dia em que se comemora o Bloomsday em homenagem a Leopold Bloom, personagem do romance Ulisses, de James Joyce, eu sei bem como as coisas estão no mínimo difíceis para mim e para meus colegas de profissão. Os motivos são inúmeros e nada óbvios, infelizmente. As razões sempre se escondem entre as frestas.

 

Somos um site que corre por fora porque com o país rachado, eu sei que se cativa a audiência batendo palma para um dos lados. A briga entre direita e esquerda está recrutando seus soldados, e o soldo pago, em alguns casos é alto. Mesmo quando não há grana envolvida, com o prestígio que se recebe, da pra pagar a fatura do cartão de crédito. E, bom, eu tenho minhas preferências políticas, como qualquer outro cidadão do mundo. Então porque não torno o Cinesofia um site partidário, ideologicamente alinhado a um partido político qualquer, e lucro com isso? Porque a Filosofia não serve a poderes estabelecidos, é sabido por Sócrates ou por Deleuze, e mesmo medíocre, eu sou um filósofo. E como sou eu quem coordena a linha editorial do Cinesofia, ele permanece não neutro, porque isso não existe, mas livre para expressar valores, ideias, pensamentos, críticas.

 

Dito isto, também é importante citar o fato de que o exercício feito aqui sempre é o de investigar conceitos a partir da tradição filosófica e com isso assumir e defender este ou aquele posicionamento. E por isso já sofremos críticas pesadas de gente alinhada a direita e a esquerda, bem como de movimentos sociais. Já não consigo contar nos dedos de uma mão a vez em que pessoas alinhadas ao movimento feminista me xingaram e ofenderam. Se as críticas estão certas ou erradas, não me importa. Importa que assim como essas pessoas todas têm direito a crítica, eu – e também o Cinesofia – tenho direito ao posicionamento e a liberdade. Daí o motivo de corrermos por fora. Tenho certeza de que a longo prazo isto será melhor.

 

De qualquer forma toda esta longa introdução é em decorrência do documentário Democracia em Vertigem, dirigido por Petra Costa que estreia dia 19/06.

 

Resultado de imagem para democracia em vertigem

 

Por enquanto só posso dizer o que espero pelo trailer, que é fantástico, poderoso. E elogiar pela valentia em dirigir um documentário com este tema nestes tempos. E mais uma vez, não se enganem: a valentia a que me refiro não é por causa da divisão política do país. É porque tratar de um tema enquanto este ainda está em andamento pode produzir leituras bastante equivocadas – José Padilha que o diga – e para uma jovem diretora, um erro crasso pode atrapalhar duramente sua carreira que, espero, seja longa e brilhante.

 

E tão difícil quanto estipular uma narrativa para o que acontece em nossa democracia atualmente, é a necessidade de realizar este exercício. Nossos intelectuais parecem imobilizados diante dos acontecimentos, em parte porque você não irá encontrar respostas nos clássicos, a altura do desafio que ora se impõe a nós, e em parte porque nossos intelectuais parecem a cada dia mais enfurnados em seus escritórios perdidos na produção de artigos para engordar seus Lattes, com raras e honrosas exceções como por exemplo Renato Janine Ribeiro, Vladimir Safatle, Marcos Nobre e alguns outros que certamente me esqueço no momento e desde já me desculpo por isso.

 

De qualquer forma, a Filosofia Política é um campo bastante complexo e necessário da Filosofia e, portanto, entre quinta e sexta feira, aguardem meu artigo sobre o documentário em questão. Se o documentário tratar do tema como eu acredito que tratará a julga pelo seu trailer, a sua relação com Jürgen Habermas, filósofo alemão, e uma outra série brasileira, Bandidos na Tv, será o tema do meu próximo artigo.

 

Até lá eu espero ter cumprido o tema deste que foi mostrar como eu e o Cinesofia lidamos com o principal tema do nosso país na atualidade. Com independência, liberdade e criticidade.

 

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