20/05/2019 às 16:36:00 | por Rafael Alves

Porque existe tanto nerd babaca e machista? Freud explica

Em um excelente texto publicado no Judão, Thiago Cardim nos lembra que a figura do nerd mudou bastante nos últimos dez, doze anos, e que a série nem sempre acompanhou o ritmo desta mudança. Nós aqui escrevemos sobre esse ambiente tóxico que é a comunidade nerd quando minha filha, Lilith, me pediu para gravar um vídeo sobre Titans, que acabou rendendo também um artigo meu.

 

A ideia básica é a mesma de sempre: além de ser um grupo fechado do tipo clubinho dos anos 80 que faz teste para saber se você pode ou não fazer parte dele com perguntas do tipo "mas em que ano foi filmado e produzido Star Wars episódio IV"? A resposta que eles esperam eu não sei, mas a correta é: que diferença faz?

 

Mas se fosse só isso, seria chato, mas não ruim. Piora quando a coisa degringola para um tipo de machismo/homofobia velada, disfarçada de puritanismo nerd. Vide o pessoal fazendo edição em Vingadores: Ultimato retirando as personagens femininas de cena, por exemplo. Eu já me perguntei muitas e muitas vezes o porque desse tipo de situação e minha resposta quase sempre envolve a perca de identidade fálica e castração. Do que se trata? Freud explica.

 

Castração é o sentimento inconsciente de ameaça experimentado pela criança quando ela constata a diferença anatômica entre os sexos. Nos menino a castração acontece quando ele torna-se consciente das diferenças entre os órgãos genitais masculinos e femininos, e assume que o pênis do sexo feminino foi removido criando-se uma angústia de que seu pênis será cortado por seu rival, a figura do pai, como punição por desejar a figura da mãe. Já estrutura fálica remete a representação da completude, do não sentimento de falta. De nada tem a ver com o órgão sexual masculino na forma literal. Mas que pode remeter a ele também.Ou seja qualquer coisa que tenha para uma pessoa a significação da completude. 

 

Isso quer dizer que, na minha análise, o nerd tóxico padrão é aquele cara que sente que para sentir-se completo precisa ser possuidor de saberes que o distinguem dos demais, como por exemplo, em qual minuto exato Han Solo dispara sua arminha laser contra um bandido. Mudar esta estrutura, ou seja, se para ser nerd já não precisar mais ter esses saberes, faz com que o nerd sinta que sua identidade está se perdendo. Ao mesmo passo a castração o faz ver as mulheres que começam a povoar cada vez mais seu meio, como alguém que, em decorrência da ausência do pênis, torna-se merecedora de certos castigos, uma vez que algo nela falta. Em suma, as mulheres merecem a punição que ele julga merecer caso perca seu pênis. Se ampliarmos a discussão, e considerarmos como pênis algum tipo de estrutura interna tipicamente masculinizada socialmente, podemos compreender que o nerd projeta na mulher sentimentos e punições sociais dos quais ele próprio julga ser merecedor caso falte com suas "obrigações de homem nerd". Ou seja, ele trata mal as mulheres na medida em que acredita que ele próprio merece ser tratado mal caso descubram suas fragilidades interiores. 

 

Claro, eu não sou psicanalista, nem quero ter a última palavra neste debate. Então faz assim: termina este texto, lê também o do Thiago Cardim, lá no site do Judão, junta tudo na cabeça e diz pra gente - e pra ele também, porque não? - o que você pensa a respeito dessa parada.

 

Só não vamos mais aceitar passivamente nenhum tipo de preconceito porque né, estamos em 2019 e não dá mais pra tolerar essas coisas.

 

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