24/06/2019 às 14:15:00 | por Rafael Alves

Obrigado Seleção Brasileira, por resgatar em mim o orgulho de ser brasileiro

Estou escrevendo este texto novamente no Empório Canela – e não recebo um centavo por este marketing pros caras – de ressaca por causa de nossa derrota para as francesas. Detalhe, por gentileza, ao pronome. Eu disse nossa derrota, não derrota delas, da seleção feminina. Porque eu me identifico demais com a seleção feminina de futebol.

 

Torci neste domingo como há muitos anos eu não torcia por nada neste país. É especialmente significativo que em meio a um período tão tenso e complicado de nossa história, os maiores e mais significativos símbolos de otimismo e esperança venha das mulheres ou do público LGBTQ+.

 

Domingo, enquanto minha esposa preparava o kit do gaúcho feliz (chimarrão + pipoca) para torcermos para elas na Copa do Mundo de Futebol feminino, a Av. Paulista era lotada com milhares de pessoas celebrando o orgulho LGBTQ+ ao mesmo tempo em que homenageia a revolta de Stonewall, - há 50 anos, LGBTs de Nova York protestaram contra violentas batidas policiais realizadas num bar da cidade, o Stonewall Inn. – tema desta 23ª Ed. da Parada do Orgulho LGBTQ.

 

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Ambos os eventos – Copa do Mundo de Futebol feminino e Parada do Orgulho LGBTQ – são um tipo de luz para todos nós. Poucas pessoas encontram seus direitos tão ameaçados quanto eles e elas nos dias que se seguem. Enquanto escrevo estas linhas, para ficar em um único exemplo, o vereador de São Paulo, Fernando Holyday, propõe internação na ala psiquiátrica a mulheres que apresentarem “inclinações” ao aborto. Leio esse tipo de notícia como se eu tivesse voltado aos anos 50, 40. E ainda assim os recados vindos deles e delas não poderia ser o mais claro possível. Há de se entender nosso papel como cidadão político em um mundo politizado.

 

+++ Leia também: CONHEÇA A HISTÓRIA DA CAMINHONEIRA TRANS QUE VENCEU O PRECONCEITO PARA SER FELIZ NAS ESTRADAS DO PAÍS

 

Mas há de ter amor. Chorar agora, para sorrir no final, como bem disse Marta, a Rainha do futebol e da porr@ toda. Zizek, um dos filósofos mais citados e populares aqui no Cinesofia é quem diz que o amor é aquele sentimento capaz de aproximar aquilo que por tendência haveria de se separar.

 

Como por exemplo quando uma família humilha o filho por ser homossexual, e ele, ao invés de se afastar de seu namorado, dele se aproxima ainda mais. Ou quando as jogadoras do Brasil, sem patrocínio, sem marketing, sem infraestrutura, sem uma liga nacional, ao invés de mandar tudo a merda e irem fazer qualquer outra coisa da vida, permanecem jogando.

 

Então apesar da ressaca por termos perdido para as francesas, o exemplo deixado pelas mulheres é o melhor possível. Não da, por exemplo, pra comparar o queixo erguido de Marta dando entrevista ao final do jogo em que perdeu para a França com o Neymar rolando no chão em óbvia simulação para tentar cavar um cartão amarelo ao adversário. Acho que já passou da hora de aprendermos que quando se quer ganhar de qualquer jeito, nós já estamos todos derrotados. E lembram-se de Darcy Ribeiro, que fracassou ao tentar criar uma Universidade plural, ao alfabetizar todas as crianças, ao salvar os índios. Mas que tristeza seria estar ao lado de quem luta contra essas coisas todas. 

 

Por isso obrigado mulheres por resgatar em mim e em milhões de outros brasileiros aquele orgulho de sermos quem somos e por nos lembrar que há muita honra na derrota quando lutamos do jeito certo. Quanto a seleção masculina, bem, eles podem fazer fila para engraxar as chuteiras de Formiga, 41 anos, única pessoa a participar de 7 Copas do Mundo, com 6 Olimpíadas disputadas e correndo em média mais de 10 km por jogo, mesmo aos 41 anos.

 

Quem sabe entre eles, exista alguém digno para tanto?

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