13/08/2019 às 16:02:00 | por Rafael Alves

O monte Oliveira.

Meu nome é Rafael Alves de Oliveira e isso é muito importante para o texto que você lerá a seguir.

 

Há na filosofia um sem número de filósofos que tentam responder, cada qual a sua maneira, as angústias que qualquer pessoa sofre apenas por respirar e estar viva. Sêneca, Diógenes, Boécio, Nietzsche, Onfray. A lista é grande e tende a aumentar na medida em que a miséria humana se alastra.

 

E há eu, Rafael, para quem o processo de cura para essas angústias passa pela fala – e verdade seja dita, não sou o primeiro a pensar isso: Freud antes de mim já o apontava e seu professor, Dr. Breuer, idem. E muitas coisas em mim – e provavelmente em você – precisam ser curadas. Não por acaso tenho tatuado em meu braço direito “toda sociedade é uma fábrica de sofrimento”. Porque é mesmo.

 

Este texto é para justificar nossa ausência nas redes sociais e a falta de atualização do site. Aqui no Cinesofia eu reúno as funções de editor, escritor, revisor, cuido do Facebook e do Twitter (que anda as traças, coitado), além de ajudar na pauta dos vídeos, gravar para o Youtube e também nosso podcast, o Chave de Leitura. Quando meu celular E meu note quebraram ao mesmo tempo, danou-se. O Cinesofia virou terra arrasada. E houve um algo a mais que balançou forte, tudo por aqui.

 

Meu pai foi diagnosticado com câncer na tiroide. Ele mora em São Paulo e eu no Rio Grande do Sul. Mil e poucos quilômetros nos separam, além dos R$ 1.600 reais de passagem de avião. Então resta as 20 horas dentro do ônibus. Lá fui eu então, acompanhá-lo, ajudar minha família como posso. E ser ajudado por eles também nessa batalha que em nossa família sequer é nova.

 

Minha vó paterna venceu um câncer. Meu avô paterno está vencendo. Minha mãe recebeu três meses de vida quando teve câncer no reto e isso foi há oito anos.

 

Nós, Oliveiras, temos um inimigo jurado, portanto. Aguardo quando chegará minha vez de ser colocado no campo de batalha. O mesmo para minha irmã, filha e sobrinhos. Pode ser que não precisemos lutar esta luta, claro, mas se precisarmos, o faremos de queixo erguido e venceremos. Como aqueles que vieram antes de nós. Como meu pai o fará.

 

Aceitar nosso destino é o que Nietzsche chamava Amor Fati, e significa aceitar e amar nosso destino a despeito de sua crueldade ou de seu caráter trágico. E que ninguém duvide: nós, Oliveiras, somos especialistas em enfrentar o trágico da vida. Eu, como único filósofo de minha família, tenho a obrigação de pensar a vida nessas categorias, porque somos nós, frutos dela. Não somente dela, verdade seja dita, porque há tanta beleza e maravilha permeando a nossa vida. Mas negar o trágico e o cruel seria negar a nossa biografia, seria um desrespeito com a vida que vivemos até o momento presente.

 

De qualquer modo, essas é a razão de nosso hiato: a vida, assim como ela é. E foi apenas isso, um hiato, sem nenhuma pretensão de abandono pelo mesmo motivo. Porque com todas as dificuldades que a vida traz é pra frente que ela segue.

 

Em nome dos Oliveiras e do Cinesofia, obrigado do fundo do coração a todos que nos acompanham, nos ajudam, nos prestigiam, nos acolhem. Somos poucos, pequenos, mas valentes. Não abaixamos a cabeça para a tragédia nem para a desgraça. Espero que você também não, porque mesmo que sua família não enfrente o que a minha enfrenta, em 2019 estamos quase todos fodidos, mas de mãos dadas e com valentia, nada poderá nos deter.

› Compartilhe este Post
Leia Também

06/11/2019 às 20:47:00

‘Tá Rindo de quê?’ – Humor e ditadura - Por Marcelo Castro

Após o golpe de 1964 a área artística do humor foi perseguida e a liberdade de expressão foi reprimida de uma forma muito ...

CONTINUE LENDO

25/10/2019 às 17:05:00

‘Girl’ – Conhece a Ti Mesmo - Por Marcelo Castro

  No francês “Azul é Cor Mais Quente” (2013) testemunhávamos uma jovem enfrentando uma busca pessoal, em tenta...

CONTINUE LENDO

15/10/2019 às 15:58:00

Oito Grandes Professores do Cinema (e duas SUPER menções honrosas...)

Nosso carinho aos mestres!

CONTINUE LENDO

05/09/2019 às 12:40:00

'Era Uma Vez no Oeste' - A desconstrução de um gênero - por Marcelo Castro

 Na cena final do clássico “Rastros do Ódio” (1956) de John Ford, o protagonista (John Wayne) está levando de vo...

CONTINUE LENDO

21/08/2019 às 14:44:00 | por Rafael Alves

Arte-terapia: jovem usa a arte para ajudar a curar sua depressão

Arte salva s2

CONTINUE LENDO

Receba Novidades


Top