05/06/2019 às 16:02:00

Fantaspoa XV, ou: Nosso dia vivendo um episódio de Friends

Agora é domingo, 02/06, 22:44, e estou ouvindo Vacation Manor, A Toast and a Spirit. 

 

Um domingo de preguiça e ressaca de sábado, quando eu, minha esposa, Geronimo e alguns de nossos melhores amigos tivemos nosso dia episódio de Friends (por nós intitulado "Aquele com a história do pedrinho").  Nos encontramos para participar de um dos mais importantes eventos de cinema do país, o Fantaspoa em sua 15ª edição, no cinema mais charmoso do Rio Grande do Sul e também um dos mais charmosos do país, a Cinemateca Capitólio. 

 

O plano era assistirmos o Poço e o Pêndulo, obra adaptada do conto de Edgar Allan Poe, estrelado por Vincent Price e dirigido por Roger Corman. O filme de 1961 permanece tão atual hoje quanto era em sua época, por trazer além do terror fantástico de Poe elementos relacionados a natureza humana: loucura, amor, maldade.

 

Chegamos por lá, visitamos as exposições de desenho, a cafeteria que estava funcionando no dia e a papelaria no segundo andar. Papeamos até a hora do filme e eis nossa surpresa: Corman, em carne e osso, com toda a dignidade de seus 93 anos de vida e mais de 400 filmes nas costas, estaria ao fim da exibição para conversar com a plateia e tirar fotos conosco.

 

Abre parêntese: pra falar a verdade não era pra ser surpresa porque o folheto do evento dizia que ele estaria lá. Nós é que não lemos direito... Fecha parênteses.

 

Corman é um cineasta famoso por ter construído sua carreira no cinema fora do grande circuito hollywoodiano, o que me fez pensar bastante sobre o papel do underground, do lado-b.

 

No rock por exemplo, o grunge deu uma sobrevida a expressividade e a uma suposta autenticidade musical. Pelo menos até o lançamento de Nevermind... Um dia o punk também esteve no underground, nas ruelas de Nova York servindo de experimento para um Andy Warhol inquieto. O mesmo pode ser dito de Jack Kerouac e Allen Ginsberg na literatura que veio a se chamar beat. E na filosofia Nietzsche, Guy Debord e Emil Cioran já estiveram à margem. E verdade seja dita, Cioran permanece.

 

O que todos eles tem em comum entre si é a potência disruptiva, verdadeiramente transgressora, capaz de romper padrões de seus universos particulares. Como esquecer a carta de Cosima Wagner, esposa de Richard Wagner, ao ler Além do Bem e do Mal? Diz ela em uma simples frase: “aqui o mal venceu”.

 

As primeiras músicas do Mudhoney, como por exemplo Touch me I'm sick, soavam catárticas, anunciando que algo de muito ruim estaria prestes a acontecer (Eu me sinto mal, e eu já me senti pior / Eu sou um verme, sim, eu sou um imbecil / Venha, Ttoque me, eu estou doente / Eu não vou viver por muito tempo, e eu estou cheio de podridões). Assim como o primeiro álbum do Black Sabbath evocava coisas malignas e sombrias. Guy Debord era lido nas trincheiras de maio de 68, pelos secundaristas parisienses em luta contra o status quo. E Cioran ainda hoje só é lido por espíritos livres e corajosos.

 

No cinema Cormam fez história com um tipo de filme que traz sua marca, sua história sua ousadia. Seu conselho ao final, para todos nós, foi a de seguir nossa visão mas atento ao que acontece a sua volta. Afinal, uma história que nunca é contada a ninguém, não pode ser chamada de história. E, creio, isso sintetiza o valor do underground.

 

Todo potencial artístico, intelectual, humano que qualquer movimento – literário, cinematográfico, filosófico, artístico – possui só será concretizado quando for posto pra fora. E quando é, costuma trazer junto uma revolução no modo de fazer as coisas. Guitarras mais altas, letras mais fortes, poemas sem métrica, terror sem jump scare.

 

Ao fim do filme e da aula de Cormam tiramos nossas fotos – com um Jeronimo visivelmente emocionado – gravamos nossos vídeos para a semana, juntamos toda a galera e fomos para o nosso bar hipster favorito: Justo, nas escadarias da Borges e tivemos nossa noite de underground. Assistimos ao show da banda Cartas na Rua, que tocava na escadaria em frente ao bar, pedimos nossas cervejas – e água, porque nem todos são da ceva – e conversamos até o bar fechar.

 

Ao fim da noite fiquei feliz em ver que ainda há gente sorrindo e feliz apesar da dureza dos tempos e agora, quase meia noite deste domingo, caiu minha ficha enquanto finalizo este artigo: nós do Cinesofia também estamos no underground. Não somos, nem queremos ser o próximo Omelete, Jovem Nerd, Pipocando.

 

Queremos fazer nosso trabalho que, até onde eu sei, só a gente faz. Queremos que outras pessoas conheçam nossa visão sobre filosofia, cinema, cultura. Mas claro, sem deixar de ouvir o mestre: estando atentos ao que acontece a nossa volta.

› Compartilhe este Post
Leia Também

06/11/2019 às 20:47:00

‘Tá Rindo de quê?’ – Humor e ditadura - Por Marcelo Castro

Após o golpe de 1964 a área artística do humor foi perseguida e a liberdade de expressão foi reprimida de uma forma muito ...

CONTINUE LENDO

25/10/2019 às 17:05:00

‘Girl’ – Conhece a Ti Mesmo - Por Marcelo Castro

  No francês “Azul é Cor Mais Quente” (2013) testemunhávamos uma jovem enfrentando uma busca pessoal, em tenta...

CONTINUE LENDO

15/10/2019 às 15:58:00

Oito Grandes Professores do Cinema (e duas SUPER menções honrosas...)

Nosso carinho aos mestres!

CONTINUE LENDO

05/09/2019 às 12:40:00

'Era Uma Vez no Oeste' - A desconstrução de um gênero - por Marcelo Castro

 Na cena final do clássico “Rastros do Ódio” (1956) de John Ford, o protagonista (John Wayne) está levando de vo...

CONTINUE LENDO

21/08/2019 às 14:44:00 | por Rafael Alves

Arte-terapia: jovem usa a arte para ajudar a curar sua depressão

Arte salva s2

CONTINUE LENDO

Receba Novidades


Top