27/06/2019 às 19:20:00 | por Rafael Alves

Entrevista| Conversamos com o crítico de cinema Marcelo Castro Moraes sobre a semana LGBTQ+

Em comemoração a semana LGBTQ+ pedimos aos nossos seguidores se poderiam nos ceder uma entrevista tendo como pauta a sexualidade, gênero, vivências. Conseguimos conversar com pessoas diversas: bissexuais, héterossexuais, homossexuais. O resultado vai ao ar a partir de hoje, com a entrevista gentilmente cedida por Marcelo Castro Moraes, crítico de cinema. Confira abaixo o resultado.

 

1. Pensando a partir do conceito de gênero, você sente alguma necessidade de se definir? Se sim, se sentiria a vontade de nos falar um pouco sobre?

Até onde eu sei eu sou hétero, mas eu acredito que nunca estaremos livres da possibilidade de nos apaixonarmos por alguém do mesmo sexo. Hoje em dia, no meu entendimento, a pessoa dizer que é com certeza hétero está sendo um tanto que precipitado.

 

2. Sente ou já sentiu algum tipo de pressão social para se definir nestes termos?

Já conheci pessoas que achavam que eu era gay unicamente devido alguns trejeitos das minhas mãos para se ter uma ideia e eu, na maior educação, dizia que eles estavam se precipitando com relação ao que eles viam em mim. Sempre há aquela pessoa que insiste que eu, ou você, deveria realmente sair do armário e se descobrir. As pessoas precisam ter realmente liberdade para se descobrir e não ir pelo que as pessoas acham. Até onde eu sei sou hétero, mas nunca se sabe o que encontraremos no futuro, pois cabe a nós descobrirmos isso sozinhos.

 

3. O movimento LGBTQ+ possui uma força social bastante forte no Brasil, seja como movimento social, seja como organização política. Você sente algum tipo de identificação com as pautas defendidas pelo movimento LGBTQ+? Se sim, quais?

Não importa a sua sexualidade, pois você pode se identificar até mesmo facilmente com o movimento LGBT, principalmente se você em alguma ocasião na vida sofreu determinado preconceito. Por exemplo, eu sofria preconceito nos tempos da escola por ser reservado, por ter pé grande e por ler gibi. São puras bobagens, mas que os jovens acabam sofrendo em sua juventude. Mas, por eu ter sofrido bullying, eu sei o que é sofrer preconceito na pele e, portanto, defendo esse movimento haja o que houver.

 

4. Apesar desta força social e política que o movimento LGBTQ+ possui, o Brasil é, infelizmente, um dos países mais perigosos para se viver caso você não seja heterossexual. Porque você acredita que este cenário permaneça mesmo com esta força?

Embora eu seja católico é preciso reconhecer que muita dessa culpa se encontra dentro da igreja. A homossexualidade existe desde os tempos antigos, mas foi devido ao surgimento da religião que isso começou a ser tachado como aberração. Atualmente, se percebe que o catolicismo tenta ser menos intolerante e tentando trazer de volta para a igreja as suas ovelhas, independentemente de sua sexualidade. O problema atualmente está sendo esse movimento comandado pelos evangélicos, que são atualmente o que foram os católicos no passado e que, infelizmente, tentam dominar os meios de comunicação e da política como um todo.

 

5. Você já se sentiu agredido física, verbal, ética ou moralmente em decorrência única de sua sexualidade? Se sente confortável para comentar a respeito do caso?

Por eu ser uma pessoa mais reservada, e até hoje eu nunca ter me casado, sempre tem aquele parente que fica duvidando da minha pessoa. Não é preciso eu ouvir ou saber por pessoas o que eles dizem, pois basta saber por eles mesmos através dos seus olhares ou comentários. Por eu ter vindo de uma família meio que conservadora é inevitável que isso venha acontecer uma hora ou outra.

 

6. Sua família sabe e/ou aceita sua sexualidade? Se eles sabem, poderia nos falar como foi o processo tanto de descoberta sexual quanto de comunicar a família sobre o assunto?

Sinceramente meus pais quase nunca pararam para sentar comigo e discutir sobre isso. O papel sobre o sexo, por exemplo, foi algo que eu fui aprendendo sozinho e com relação a opção sexual eles nunca me perguntaram. Talvez por vergonha, ou por terem receio da reposta. Se me perguntassem eu diria que, até onde eu sei, eu sou hétero, mas nunca se sabe né paizinhos.

 

7. Como você enxerga o atual momento da história do Brasil para a população LGBTQ+?

Eu acho que quanto mais se aperta a corda mais forte esse movimento fica. Apesar de vivermos em tempos de Bolsonarismo, é curioso que algumas leis a favor da comunidade LGBT tenham avançado. E Nesse último domingo, por exemplo, tivemos em torno de três milhões de pessoas na Avenida Paulista em comemoração ao movimento LGBT e provando sua total força perante esses obstáculos discriminatórios hoje em dia.

 

8. Você acredita os homossexuais, bissexuais ou qualquer outra sexualidade tem sido retratados de forma honesta e respeitosa no cinema e nas séries? Porque?

Sempre haverá detratores, até mesmo vindos da própria comunidade LGBT, que diz que eles não são exatamente retratados fielmente nessas mídias. Mas, independentemente de serem ou não serem exatamente retratados nas telas, antes que tenha do que se não houvesse nada respeito. Hoje você tem assinatura da Netflix e se vê um cardápio infinito de inúmeros filmes e séries dessa temática e não tem o que reclamar.

 

9. Poderia nos recomendar um filme, um livro, um disco e uma série para nós?

Um dos meus filmes preferidos pertence a essa temática que é no caso de "Cidade dos Sonhos" (2001). Não podemos esquecer do genial "Azul é a Cor Mais Quente"(2013), em que mostra de forma gradual o verdadeiro nascimento desse tipo de relação e que possui uma das cenas de sexo mais realistas que eu já vi no cinema. De séries de tv tranquilamente você encontra atualmente na Netflix, como no caso de "SenSe8" e "Everything Sucks" como bons exemplos. De livros eu não tenho nenhum especifico, mas recomendo o graphic novel "Estranhos no Paraíso", de Terry Moore e que atualmente está sendo relançado em três grandes volumes. De música boa parte dos meus ídolos são gays, como no caso de Freddie Mercury, Madonna, Elton John e dentre tantos outros e a lista é infindável.

 

Marcelo Castro Moraes Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 90 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre. Mais informações ou propostas para algum trabalho entrem em contato pelas minhas redes sociais ou pelo email.

 

Facebook - Marcelo Castro Moraes

twitter - @cinemaanosluz email

e-mail: marcelojs1@outlook.com

› Compartilhe este Post
Leia Também

06/11/2019 às 20:47:00

‘Tá Rindo de quê?’ – Humor e ditadura - Por Marcelo Castro

Após o golpe de 1964 a área artística do humor foi perseguida e a liberdade de expressão foi reprimida de uma forma muito ...

CONTINUE LENDO

25/10/2019 às 17:05:00

‘Girl’ – Conhece a Ti Mesmo - Por Marcelo Castro

  No francês “Azul é Cor Mais Quente” (2013) testemunhávamos uma jovem enfrentando uma busca pessoal, em tenta...

CONTINUE LENDO

15/10/2019 às 15:58:00

Oito Grandes Professores do Cinema (e duas SUPER menções honrosas...)

Nosso carinho aos mestres!

CONTINUE LENDO

05/09/2019 às 12:40:00

'Era Uma Vez no Oeste' - A desconstrução de um gênero - por Marcelo Castro

 Na cena final do clássico “Rastros do Ódio” (1956) de John Ford, o protagonista (John Wayne) está levando de vo...

CONTINUE LENDO

21/08/2019 às 14:44:00 | por Rafael Alves

Arte-terapia: jovem usa a arte para ajudar a curar sua depressão

Arte salva s2

CONTINUE LENDO

Receba Novidades


Top