01/07/2019 às 13:46:00 | por Rafael Alves

ENTREVISTA | Conversamos com Luciano Rocha, cinéfilo e estudante de filosofia sobre o movimento LGBTQ+

A semana LGBTQ+ acabou, mas não a importância deste movimento social. Por isso continuamos conversando e chamando a atenção para esta pauta tão importante para a sociedade.

 

Conversamos com Luciano Rocha, estudante de Filosofia, 38 anos, cinéfilo e comerciário. Confira abaixo seu ponto de vista sobre:

 

1. Pensando a partir do conceito de gênero, você sente alguma necessidade de se definir? Se sim, se sentiria a vontade de nos falar um pouco sobre?

 

Eu nunca senti necessidade de me definir. Me defino como um ser humano que busca ser feliz assim como todos. Não sinto que eu precise ser rotulado por mim ou pelos outros que convivem comigo embora as pessoas sempre esperam que, de alguma forma, eu mostre algum ‘sintoma’ de ser gay.

 

2. Sente ou já sentiu algum tipo de pressão social para se definir nestes termos?

 

A pressão que eu sinto é velada. As pessoas esperam que tu sempre faça um gesto, fale de alguma forma ou se vista de determinada maneira que caracterize minha orientação

 

3. O movimento LGBTQ+ possui uma força social bastante forte no Brasil, seja como movimento social, seja como organização política. Você sente algum tipo de identificação com as pautas defendidas pelo movimento LGBTQ+? Se sim, quais?

 

Eu me identifico sim com a maioria das pautas do movimento, dentre as quais: a criminalização da homofobia, o reconhecimento da identidade de gênero, casamento civil igualitário e a adoção de crianças por casais homoafetivos.

 

4. Apesar desta força social e política que o movimento LGBTQ+ possui, o Brasil é, infelizmente, um dos países mais perigosos para se viver caso você não seja heterossexual. Porque você acredita que este cenário permaneça mesmo com esta força?

 

Apesar dessa força e das campanhas propositivas eu acredito que esse cenário permaneça, sim. Vivemos em um pais extremamente machista e homofóbico. Um país em que os homens sentem sua masculinidade constantemente ameaçada pela ascensão cada vez maior das mulheres e também dos LGBTs em todos os níveis da nossa sociedade. Acredito que algumas religiões ou crenças também colaboram para esse tipo de violência. 

 

5. Você já se sentiu agredido física, verbal, ética ou moralmente em decorrência única de sua sexualidade? Se sente confortável para comentar a respeito do caso?

 

Já me senti sim. De novo, geralmente essa agressão é disfarçada. Por exemplo recentemente no meu trabalho os meninos organizaram uma janta somente deles em que eu não fui convidado, todos dizem que esqueceram, mas tenho certeza que foi por preconceito, mesmo que nenhum admita e me tratem ‘normalmente’ no dia a dia. Provavelmente esqueceram por inconscientemente não acreditar que eu faça parte da lista dos homens do trabalho. Isso é o mais recente que eu lembro mas sempre tem outras pequenas coisas de todos os dias que eu aprendi a relevar ou não ligar.

 

6. Sua família sabe e/ou aceita sua sexualidade? Se eles sabem, poderia nos falar como foi o processo tanto de descoberta sexual quanto de comunicar a família sobre o assunto?

 

Minha família hoje sabe e respeita minha sexualidade. Na verdade eu nunca esperei ou espero a aceitação de ninguém. O que eu espero de todos independente da relação pessoal é o respeito. Quando resolvi contar para todos eu já tinha 24 anos, hoje tenho 38. Contei por que naquela época eu comecei a namorar um homem. Eu já tinha ficado com alguns mas quando decidi namorar eu me senti pressionado por mim mesmo, para me sentir mais aliviado, com menos peso nos ombros e sem a sensação de que eu estava fazendo alguma coisa errada ou enganando alguém. Mesmo que eu não esperasse aceitação e sim respeito da família é claro que eles são as pessoas mais importantes da minha vida então saber como eles ficariam ao saber ia ser um guia para saber como eu ia lidar com tudo. Minha mãe entendeu, me apoiou e disse que me amaria independente de qualquer coisa e que inclusive já desconfiava. Pedi para ela contar para o meu pai. Ele não falou nada na hora. Todos acabaram sabendo depois. Meu irmão mais velho, meu pai e minha irmã em um momento mais acalorado de alguma discussão acabaram usando termos ofensivos contra mim. Minha irmã fez duas vezes. Na segunda eu disse que seria a última vez, na próxima eu nunca mais falaria com ela. NUNCA mais fez. Meu irmão me ofendeu eu fiquei triste, chorei, ele me pediu desculpas e também nunca mais repetiu. Cheguei a ficar morando 2 meses com meu pai sem falar com ele e naturalmente voltamos a nos falar. Ele também NUNCA mais repetiu. Nos dias atuais nos nos damos muito bem, tenho 3 irmãs e um irmão. Sou o irmão do meio. Tenho mais de 10 sobrinhos. Todos, TODOS me tratam muito bem e são super carinhosos comigo. Acho que eles tinham um certo medo ou receio de me ver andando ou falando diferente ou agarrando algum homem na rua. Acho que quando eles viram que eu continuei a mesma pessoa tudo se normalizou

 

7. Como você enxerga o atual momento da história do Brasil para a população LGBTQ+?

 

Acredito que o momento seja mais tenso do que talvez nunca tenha sido, principalmente por causa de algumas razões que eu já citei acima e também por termos um presidente que declaradamente é homofóbico e consegue insuflar uma multidão de fanáticos que seguem e se se inspiram nele.

 

8. Você acredita os homossexuais, bissexuais ou qualquer outra sexualidade tem sido retratados de forma honesta e respeitosa no cinema e nas séries? Porque?

 

Não sei bem o que seria essa forma honesta e respeitosa de tratamento. O movimento LGBT luta contra os estereótipos no cinema ou nas séries. Mas já vi personagens gay sendo retratados de várias formas. De diversas formas, assim como é diverso o universo LGBT. Alguns se identificam mais outros menos com determinados ‘retratos’. Eu acredito sim, que existem filmes e séries ruins e aí depende muito da subjetividade.

 

9. Poderia nos recomendar um filme, um livro, um disco e uma série para nós?

 

Filmes eu poderia recomendar uns 15 mas vou ficar com os que mais me tocaram ou geraram algum tipo de conexão comigo. “As Horas” de 2002; “O Segredo de Brokeback Mountain”, de 2005 e mais recentemente “Moonlight”, de 2016. Séries com temática exclusivamente gay não assisti muitas mas tem duas que eu acho incríveis: “Transparent” da Amazon e “Looking” da HBO. Tenho pouco livro com tema LGBT. Nunca li nenhum exclusivo mas estou lendo no momento “Com Amor, Simon” que inspirou um filme de mesmo nome de 2018.

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