13/06/2019 às 13:11:00 | por Rafael Alves

ENTREVISTA | Batemos um papo com o vocalista e letrista de Batuca na Bituca, Lucas Nunes

Dias desses rolando o feed do Facebook me apareceu um vídeo que parecia bacana. Estava sem fone, na rua, e não sou mal educado. Vejo outro dia, talvez nunca, paciência. Aconteceu de novo comigo no posto de gasolina, tomando um café. Ai lembrei: 'não seja burro Rafael. Salve o vídeo e o veja em casa.' Ai assisti a minha descoberta musical de 2019: Batuca na Bituca, um projeto que, em minha humilde opinião, é melhor do que 95% do que se produz no gênero que eles tocam. 

 

Fui atrás do Lucas Nunes, vocalista e líder do projeto, e o convidei para uma entrevista. Gentilmente ele nos cedeu e cá estamos. Confiram o que tem a dizer uma das vozes que, pelo menos quem mora no Rio Grande do Sul, deveria estar de olho. 

 

 

CINESOFIA: Muito obrigado pela entrevista cedida. Gostaria de começar pedindo para explicar um pouco sobre sua carreira dentro da música.

 

LUCAS NUNES: Que isso, o prazer é todo meu. Na verdade desde que eu descobri que “sol” rimava com “anzol” eu comecei a escrever e compor, acho que isso começou lá pelos sete anos de idade. Toco violão e guitarra desde os onze anos de idade, mas sempre tive muito mais interesse pela escrita e composição de arranjos em vez de me aprimorar em técnicas aperfeiçoadas de um determinado instrumento. Toco com bandas desde a adolescência, mas só com a Batuca na Bituca, no final de 2017, que consegui por minhas composições em um projeto em que eu tinha total autonomia de criação, seja no estilo musical, ou lírico.

 

CINESOFIA: Você frisou em alguns momentos o processo de composição das letras de suas músicas. Porque?

 

LUCAS NUNES: Acho que as letras são fundamentais para a compreensão do projeto. Embora o entendimento delas seja totalmente subjetivo, a intenção é de que elas se complementem ao arranjo e andamento de cada canção, como se a soma de cada fator é que apresentasse a obra. Talvez porque praticamente todas as canções são autobiográficas, fica mais fácil de explicitar o sentimento delas e de que maneira elas aparecerão na música. Seja na letra ou em um teclado dissonante.

 

CINESOFIA: Ótimo. Sendo as canções autobiográficas, poderia dizer qual o papel da música na sua vida e qual o impacto você acredita que tem ou que pode ter na vida das pessoas através da música que produz?

 

LUCAS NUNES: É um universo de possibilidades e utopias maravilhoso, velho. Que te possibilita transmitir e receber todo o universo alheio, das vezes em que experienciei isso foi realmente indescritível. Saber que alguém te entende ou se identifica com o que tu sentia em determinado momento é uma conexão foda.

 

CINESOFIA: Você acredita que a arte tenha alguma dimensão política? Se sim qual?

 

LUCAS NUNES: Acredito que sim. O cenário político influi diretamente no artista que retorna suas composições para o mundo. Fazendo com que as pessoas reflitam, questionem-se ou se sintam provocadas perante o novo cenário abordado pela obra do artista. Acho que, antes de tudo, a arte política precisa ser honesta e verossímil com a perspectiva do artista. 

 

CINESOFIA: E como você enxerga a música que você faz dentro deste cenário? Existe alguma mensagem neste sentido que você queira passar ou suas letras falam apenas sobre experiências mais existenciais?

 

LUCAS NUNES: A maior parte das vezes que eu quis falar sobre esse tema eu acabei desistindo por soar forçado. O tema mais próximo que eu me senti seguro e necessitava falar foi na Amanhã, do Acalanto para o Mundo Moderno, que se refere aos operários do Vale do Paranhana. meus pais são operários e, na época da composição, estava trabalhando numa indústria e vi de perto o papel de um operário nela. Versos como "teu olhar em riste já se move contra a vida desespera e o tempo vai devagar" simbolizam esses tempos. Acho que foi a única e mais próxima de um tema político até o momento.

 

CINESOFIA: E sobre o seu projeto, poderia nos explicar ele por gentileza? Do que se trata, quais suas influências musicais e literárias? O que você enxerga para o futuro?

 

LUCAS NUNES: A Batuca na Bituca surgiu da vontade e necessidade de gravar minhas músicas antes que eu enjoasse delas. Como nunca tive muito dinheiro para gravar em estúdio profissional só em 2017 que comecei a gravá-las no meu quarto e acabei convidando alguns amigos para participarem na construção dos arranjos e fazerem alguns vocais. É curioso porque o projeto apenas se tornou uma banda de fato quando terminamos o EP, incentivado diretamente pela Bárbara Ronsoni, que além de ter realizado a divulgação do material, realizou todos os projetos de marketing, mídias sociais, bem como os processos jurídicos com distribuidoras para ir pro streaming. Só aí que eu fui me dar conta que o projeto que nasceu do meu quarto tinha virado uma banda e que poderia alcançar mais pessoas, então aqueles que tinham interesse de dar andamento no projeto se tornaram integrantes da Batuca na Bituca, sendo o Lucas Almeida (guitarra e baixo), Jean Mattos (baixo e percussão), Julia Tavares (vocal e percussão), Otávio Rodrigues (Bateria) e o Maurício Machado (Accordeon e teclado). Quanto ao futuro, espero continuar trilhando esse mesmo caminho, fazendo as artes sem a pretensão de alcançar um tipo de som ou público específico, respeitando o tempo e as possibilidades que ele apresenta.

 

CINESOFIA: Mas todo artista fala algo para alguém certo? Que tipo de pessoas você gostaria que escutasse seu som?

 

LUCA NUNES: Acredito que sim, mas eu realmente não penso em um tipo de pessoa. O que importa é a identificação da obra na vida dela e só.

 

CINESOFIA: Para finalizar, qual livro e álbum você nos recomenda?

 

LUCAS NUNES: Massa, vou ficar com os clássicos: Capitães da Areia do Jorge Amado e Acabou Chorare dos Novos Baianos. 

 

CINESOFIA: Alguma obra (literária ou não) posterior aos anos 00?

 

LUCAS NUNES: Ventura dos Los Hermanos, Espiral de ilusão do Criolo e o Felipe Faleiro, vulgo Thesaddestdude.

 

CINESOFIA: Muito obrigado pela entrevista e parabéns pelo trabalho. Explodiu a cabeça de todos nós. É bom mesmo!

 

LUCAS NUNES: Bah, que massa. Muito obrigado e tamo aí, velho!

 

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