13/06/2019 às 13:57:00 | por Rafael Alves

Charlie Hebdo, a misoginia, a liberdade de expressão e o Feminismo Amazona

Anos atrás - parece que em um mundo completamente diferente - o jornal francês Charlie Hebdo sofreu um atentado em decorrência de uma série de charges que fez com o profeta Maomé. 

 

Extremistas islãmicos não curtiram a paródia e foram as vias de fato. Na época não havia debate: o jornal, mesmo fazendo um material considerado de mal gosto, de baixa qualidade, tem o direito de publicar aquilo que lhe convém, execendo a tal liberdade de expressão. O tempo passou, e eis que no ano de 2019 o jornal se vê a volta de mais polêmicas e a pergunta foi lançada: as pessoas que ontem os defenderam, hoje os fará? Veremos.

 

O caso

 

A coisa toda é fruto daquele humor a lá 5ª série, tão famoso no Brasil, com doses generosas de machismo. A manchete do seu último número que foi as bancas dizia “Vamos comer algumas por um mês!”, com um desenho de uma vagina com uma bola de futebol no lugar do clitóris, o que segundo o artista Biche Doe, satiriza a obra de arte A origem do Mundo, de Gustav Courbet. O editorial da publicação questiona - satirizando ou não - se “o futebol feminino também vai precisar participar da idiotização das multidões para ser levado a sério igual ao futebol masculino?”

 

Como todo mundo tem um opinião sobre tudo, e o filtro é cada vez menor, o público caiu em cima. De acordo com o levantamento feito pelo site Hypeness, alguns jornalistas questionaram a revista:

 

“É a coisa mais asquerosa que vi em meus seis anos de jornalismo. Uma mulher é muito mais que sua vagina. E considero a Copa do Mundo feminina muito mais interessante que a dos homens”, disse uma usuária.

 

“#CharlieHebdo, vocês desrespeitaram e objetificaram sexualmente jogadoras de futebol do mundo todo. Isso é nojento e ofensivo. Peço que se desculpem imediatamente”, postou outra pessoa.

 

E isso me fez lembrar o que Camile Paglia, filósofa feminista, chamou de Feminismo Amazona. Seu posicionamento vem de suas leituras e experiências vividas nos anos 60, e prevê mulheres autoafirmativas e capazes de qualquer feito digno, como por exemplo o de Amelia Earhart, feminista e pioneria na aviação norte americana. 

 

Mulheres perderam a solidariedade das outras mulheres, afirma Paglia.

 

Seu modelo de feminismo reorganiza as preocuções femininas colocando como prioridade a dignidade pessoal da mulher acima de sua carreira profissional. Diz ela no programa do Pedro Bial, que se um homem a desrespeitar, ela o confronta na mesma hora, não após seis meses, três anos em um comitê, reclamar do ocorrido. E que se isso a fizer perder promoções ou oportunidades de emprego, que seja. Sua crítica mais forte é dirigida ao que ela chama de Feminismo Burguês, que procura substitutos de figuras paternas e figuras de autoridade para proteger a mulher. O que suas pesquisas indicam é que as mulheres tem demonstrado estarem mais infelizes, porque destruíram espaços entre elas e os homens.

 

+++ Leia também: PORQUE EXISTE TANTO NERD BABACA E MACHISTA? FREUD EXPLICA

 

A despeito disso ela defende com bastante veemência que mulher alguma, em qualquer posição proteste contra qualquer tipo de desrespeito de cunho sexual, compreendendo que as mulheres e os homens estão em campos diferentes.

 

Fico tentando imaginar como este modelo de feminismo, o Amazona, se choca com o Charlie Hebdo. Há aqui dois modelos éticos bastante importantes em confronto. O primeiro é o direito a liberdade de fala; o segundo é a dignidade da mulher enquanto mulher. Aqueles que defenderam o direito do Charlie ofender a religião muçulmana agora precisam ver se vão mudar de lado porque o alvo do deboche mudou e ai não sei se pega tão bem defender o direito de um jornal ofender a dignidade feminina. Nestes casos pede-se desculpas ontem ou hoje.

 

E quanto a ofensa em si, eu não quero ser mal interpretado, mas esse é um problema feminino. Neste ponto concordo com Paglia. Não vou tutelar mulher alguma neste caso, nem me levantar contra ou a favor desta capa, além de dizer que ela é o cúmulo do humor 5ª série. Ou seja, nem engraçado é. Se as mulheres disserem que é um desrespeito, eu concordo. Se disserem que não é, eu concordo também. Independente de qualquer coisa, contem com meu apoio.

 

Isso não é um problema meu, e me parece bom que seja assim.

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