15/07/2019 às 12:44:00 | por Rafael Alves

Big Little Lies - uma joia do vazio existencial - por Rafael Alves

Big Little Lies é uma joia do vazio produzido pela fábrica de séries que pretende substituir Hollywood em breve, reunindo uma constelação de excelentes atrizes bem pagas e multipremiadas.

 

O seriado em si narra a história de um grupo de mulheres brancas – salvo uma única exceção de modo que, em tempos de política representativa, a série possa ter apelo entre outros públicos – pertencentes a elite da cidade onde moram, preenchendo seus dias com questões sobre a vida escolar dos filhos, festas da e para a alta sociedade, discussões familiares, e etc.

 

Por trás dessa cortina – porque, obviamente, há um pano de fundo a ser mostrado, em contraste com a superficialidade das relações representadas – há uma mulher que é constantemente violentada física e sexualmente pelo marido e uma outra que tenta superar o estupro do qual o seu filho é fruto. Outras questões sociais são levantadas como o bullying, a segregação social, o drama da mulher solteira que chega em uma comunidade hostil e outros semelhantes.

 

+++ Leia também: ‘A TORTURA DO MEDO’ - RECONHECIMENTO TARDIO, MAS NÃO FALHO

 

É como se a série operasse em dois níveis que pretendem-se excludentes: no plano social da esfera pública que, obviamente se coloca como falso e fingindo, e o das relações reais que opera na esfera privada e em oposição, nos levando a concluir algo como “oh, quantas dificuldades essas mulheres passam em suas vidas, e corajosa e estoicamente, por pressão social, representam vidas perfeitas umas às outras, enquanto tentam viver com dignidade”.

 

Há, entretanto, outras formas de se pensar Big Little Lies.

 

Sem entrar no mérito da meta-análise, que pretende encontrar aquilo que os diretores e produtores queriam transmitir com a série, é possível compreender que essa justaposição entre uma vida pública e uma vida privada representa a tensão com a qual as mulheres convivem diariamente, independentemente de suas posições sociais. Mulheres brancas e negras, ricas e pobres, casadas e solteiras sofrem com a conciliação de seus projetos de vida, papel familiar, satisfação sexual. Esta conciliação parece fragmentar a personalidade da mulher, lhe fazendo representar papeis aqui e ali, ora como uma empoderada mulher de sucesso, ora como uma submissa esposa do lar. Entretanto essa rígida fronteira entre esfera pública e privada contém rachaduras de modo que uma influi na outra, completando a si mesma no momento em que uma acaba por não apenas influir, como também interferir, e alimentarem-se mutuamente. Em outras palavras a mulher que é espancada pelo marido, não consegue ter uma vida social assim tão saudável quanto gostaria de representar, ou a mulher que foi estuprada não consegue se relacionar afetivamente.

 

Mas tudo isso é obvio.

 

O vazio é a pergunta: o que mantém esta estrutura violenta, que sabemos, afeta mulheres e homens? Ideologia é a resposta. Mas não a de Marx, belamente formulada no volume 1 de sua obra O Capital, “eles não sabem o que fazem, mas fazem mesmo assim”. É a ideologia operando em um nível cínico, como diria Zizek: “eles sabem o que fazem, e fazem mesmo assim.”

 

A força material da ideologia nos manda comprar casas, carros, roupas como também nos ordena dar festas e viajar a Paris, e espera-se que o façamos sem pensar muito no assunto. A verdade, porém, é que pensamos.

 

Pensamos porque estamos constantemente, em nossas conversas do dia a dia, nos perguntando e perguntando uns aos outros, sobre felicidade. Acreditamos em algum nível profundo de consciência que a felicidade não está nas relações materiais, no dinheiro, mas em outros tipos de experiências, de vivências. Buscamos com certo afinco uma experiência que nos faça dar sentido a vida, e essa experiência nunca chega. De algum modo, nas conversas do dia a dia, as pessoas costumam deixar escapar saber que nosso modelo de vida, trabalhando das 8h as 18h, com folga aos fins de semana, nos impede de encontrar este sentido.

 

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E é esta violência estrutural que carregamos. Sabemos, em algum nível, que nosso modelo de consumo e de vida está profundamente errado, mas enquanto você lê estas linhas as ruas permanecem pacificadas. Não há um protesto sequer acontecendo mesmo com 62 milhões de pessoas com seus nomes no SCP/Serasa. Quando lembramos que no país, apenas 79 milhões de pessoas efetivamente trabalham, estamos falando que quase 80% dos trabalhadores não recebem o suficiente para pagar suas contas. E a vida segue.

 

E as ruas continuam pacificadas com uma mulher sendo abusada a cada dois segundos, segundo os dados do Instituo Maria da Penha. Continuam pacificadas com 64 mil pessoas sendo assassinadas todos os anos. Continuam pacificadas com o número de pessoas negras assassinadas pela polícia sendo o triplo do número de pessoas brancas. Os exemplos são infinitos.

 

Quer dizer, sabemos muito bem que as coisas não vão nada bem. E a nossa vida continua. No Brasil, com as pessoas brigando por causa de um ex-juíz ou por causa do partido no qual você vota. Nos EUA, com Nova York tendo a maior população em situação de rua do planeta, o cenário é o mesmo.

 

Em Big Little Lies, há um déficit neste sentido inclusive, porque as protagonistas, perdidas em seus dramas específicos do universo feminino, não questionam em nenhum momento o sistema educacional desigual oferecido as crianças norte-americanas. Também não há nenhum questionamento das protagonistas relacionado ao trabalho de uma delas no mercado imobiliário, pivô da maior crise do capitalismo em 2008, e até hoje sem a regulação necessária para que novas crises aconteçam.

 

Ao invés de um questionamento sobre a falta de sentido e sobre o vazio que nossas vidas possuem, há um sentimento que perpassa a todas elas afirmando algo como “meu deus, como minha vida é importante, como minhas dores são profundas, como minhas dificuldades são insuperáveis”. E aparentemente todos e todas aceitam essas premissas e a vida segue seu rumo.

 

Não estou, obviamente, pedindo que, na terceira temporada, se houver uma, que as protagonistas passem a compor as fileiras do Exército Vermelho dos Operários e dos Camponeses e comecem a revolução proletária em Wall Street. Estou, inversamente, apontando para as amarras ideológicas que fazem com que elas permaneçam presas a seus problemas, em alguns casos, seríssimos.

 

Pois é exatamente da falta de sentido na vida pública, onde a relação entre trabalho e interação humana acaba desvalorizando a segunda, que a vida privada acaba ganhando um protagonismo que, de fato, inexiste, uma vez que, como já foi dito, um está intimamente ligado ao outro.

 

Quando as nuances da vida privada também falham em oferecer o sentido de vida que a vida pública não foi capaz de dar, o vazio que se faz é a própria amarra ideológica. É através do vazio que vamos comendo lixo diariamente, pois, se a vida não for como é, de que jeito será?

 

De que jeito será?

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