10/06/2019 às 13:15:00 | por Rafael Alves

A ligação entre seu Adidas novo e a tragédia de Chernobyl

Começo a escrever este artigo em um final de domingo bem preguiçoso ouvindo Pearl Jam, Breath. Eu, minha esposa e alguns amigos passamos o dia no Templo Budista Khadro Ling, em Três Coroas/RS e de lá fomos a Feira da Mata, em Campo Bom, dar uma olhada para ver como estava uma das poucas feiras hipster da cidade. Foi bom demais tirar um dia de folga para, ao invés de se jogar no sofá e se entregar ao combo Netflix/Streaming da Sky/PS4, sair e ver algo além de pixels. Mas hoje é domingo, e eu teria que voltar pra casa com, ao menos uma ideia do que falaria na Live de hoje pelo Facebook e para o artigo que precisa ser entregue até, mais ou menos, as 13h de segunda.

 

Dessa vez quem montou a pauta foram nossos seguidores no Instagram que podiam votar entre a última – e fraca – temporada de Black Mirror e Chernobyl, a série fenômeno do momento – pelo menos até a próxima. Levou, e de lavada, Chernobyl, que teve melhores notas que Breaking Bad e Game of Thrones no site do IMDb, o que me faz pensar que no futuro as notas terão que ser de zero a quinze, não mais a dez. Porque toda semana sai uma “nova melhor série QUE VOCÊ TEM QUE ASSISTIR”.

 

Brincadeiras a parte, sim, Chernobyl é ótima. Conta a história que quer contar com as liberdades que pode cometer por não se tratar de um documentário. Aliás, a Rússia anunciou que fará sua própria série sobre o desastre apontando um dedo para os EUA e para a Cia. Que venha.

 

Os motivos pelos quais a série é boa você deve ter encontrado em qualquer outro site por ai. Todos falam mais ou menos a mesma coisa, com poucas variações entre si. Os grandes portais parecem reciclar textos, adjetivos, jargões. E cometem o pior dos erros, em minha opinião, que é tentar ou escrever sobre o que se acredita ter sido a intenção do diretor em uma metalinguagem mambembe, ou tentar contextualizar o filme/série sem bagagem cultural, sem ter passado horas e horas em uma biblioteca lendo sobre filosofia, geografia, sociologia, história...

 

Então vou pular o que você pode ler por ai. Vou te dar aquilo que só nós podemos oferecer: reflexão. Vamos lá.

 

+++ Leia também: GUERRAS NUCLEARES E ATOMPUNK 

 

Sobre Chernobyl, nosso consumismo e o aquecimento global

 

O telhado da usina após a explosao do quarto reator de Chernobyl, em imagem de 1986 Foto: Igor Kostin / REUTERS

 

A usina de Chernobyl foi talvez o pior desastre ambiental da História do planeta. A quantidade de radiação foi absurdamente alta, matando segundo fontes não-oficiais 93 mil pessoas e ameaçando milhões. Antes dela Hiroshima e Nagasaki sofreram com o mesmo mal. E também a usina nuclear atingida pelo Tsunami japonês. Acredito que há uma lição aqui que nem nova é. Se algo pode dar errado, cedo ou tarde, dará. Não é questão de pessimismo, mas de estatística. Temos, por exemplo um dado constante e inalterável: aviões caem. Então eles irão cair, e a cada avião que levanta e pousa sem acidente, estamos mais próximos daquele que decolará e não pousará. Isso é matemática pura.

 

O mesmo para energia atômica. Se pode explodir, explodirá. Como explodiu. E que houveram homens e mulheres bravos que, literalmente deram suas vidas para mitigar a tragédia, aqui gostaria de lembrar-lhes o que de fato deveria nos inspirar. Certamente que não seria um produto de marketing que nas horas vagas joga futebol e simula falta, tampouco um personagem fictício que voa por ai com de armadura robótica. Há uma cena em Chernobyl em que bombeiros são convidados a morrer para salvar boa parte da população da Europa de morrer contaminada. São convencidos com o argumento de que os russos têm uma história de dor que os preparou para fazer o que deve ser feito, não o que querem fazer. Eis um herói. Alguém que ciente da própria morte, podendo evitá-la, escolhe morrer para que muitos possam viver.

 

E isso, o passado e seus heróis, deveria ter nos ensinado q não mexer com certas coisas, porque o equilíbrio que ora temos no mundo é delicado. Enquanto escrevo, um relatório apavorante aprovado no sétimo encontro de Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), ocorrido em Paris, nos alertou de que 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção. UM MILHÃO.

 

Resultado de imagem para aquecimento global

 

Não queira saber o que acontecerá com o nosso mundo se o ecossistema, essa frágil teia de proteção a nós, perder um milhão de espécies da noite para o dia. É o nosso fim. O mesmo vale para o relatório de 400 páginas divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), afirmando que temos 12 anos para reverter o quadro de aquecimento e limitá-lo em 1,5 grau Celsius em relação ao período industrial. É isso ou estamos perdidos. Com um aquecimento de 2 graus Celsius, a probabilidade do Oceano Ártico descongelar completamente durante o verão aumenta de uma vez por século para uma vez por década, eliminando todos os recifes de corais e impactando de forma incalculável toda a biodiversidade marinha. E lembrando que os corais produzem a maior parte do oxigênio que você está respirando AGORA.

 

Olhando hoje para a paisagem do templo Khadro Ling – igual a do Tibet, segundo o fundador do templo, Chadud Tulku Rimpoche – fui tomado pelo clichê do cara suburbano que relembra o quanto a natureza é importante. Mas porque, caramba, é.

 

Qual a razão para existir algo como Chenobyl, ou mesmo uma bomba nuclear, peloamordedeus? Argumentos as pessoas sempre arrumam, normal. Haverá quem defenda com unhas e dentes o direito de termos em mãos algo capaz de exterminar a vida no PLANETA INTEIRO. Fazer o que? Essas são almas perdidas no momento, infelizmente. 

 

O foco fica sendo compreender como há quem creia nisso. E como evitar que nossa ganância por novos itens de consumo desnecessário aumente a demanda de energia a níveis que a Terra simplesmente não consegue suprir. Louco isso, não? Nós consumimos tanto que todo o planeta junto não consegue suprir a demanda. Daí a necessidade de outras fontes de energia. Parece bobagem, mas há uma ligação entre seu novo tênis da Adidas ou bolsa 30 Montaigne, da Dior e usinas nucleares, e a ligação é a necessidade de ter novas fontes de energia para suprir demandas de consumo nhé.

 

Aqui convém lembrar de Thoureau, que foi viver no meio do mato em sua própria cabana, na natureza selvagem. Cabana que ele mesmo construiu aliás. Também podemos lembrarmo-nos de Alex Supertrump – AKA Christopher McCandless – indo se aventurar, e infelizmente morrer, no Alasca, inspirado em Thoreu. E há uma série de pensadores, filósofos ou não, que nos mostram a importância de nos conectarmos mais e melhor com a natureza a nossa volta. A lista inclui gente tão diferente entre si quanto Diógenes, o cínico, até Leonardo di Caprio e Naomi Klein. Você não precisa mudar quem você é para prestar atenção a essas coisas. Be yourself e salve o planeta. Sacou?

 

Mas não me entenda mal, eu sei que a menos que você seja o Obama me lendo – se for o caso, olá Obama! Adorei sua entrevista para o David Letterman – você não tem muitas condições de salvar, sozinho, o mundo. Mas se com esse texto eu consegui te fazer ficar com uma pulga atrás da orelha sobre questões urgentes de nosso tempo, finalizo este texto feliz

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