17/07/2019 às 21:56:00

'O Rei Leão' - O Rei Lear Para Uma Geração - por Marcelo Castro

Vamos voltar no tempo, mais especificamente no final da década de 80, onde os estúdios Disney, após anos de altos e baixos, voltou a ter sucesso no ano de 1989 ao lançar "A Pequena Sereia". O filme serviu de ponta pé inicial para o estúdio e lançar outros grandes sucessos como, por exemplo, "A Bela e a Fera"(1991) e "Aladdin" (1992). Porém, a sua maior obra prima naquele período foi sem dúvida alguma "O Rei Leão" (1994), filme de sucesso absoluto, tanto de público como de crítica, mas obtendo esses frutos  graças ao uso de ingredientes eficazes e certeiros.     

 

O início da obra é arrasador, onde testemunhamos o nascer do sol de uma África, aparentemente, intocada e se casando com perfeição com a música "Circle of Life". O momento, aliás, remete aos velhos e bons tempos da era de ouro do cinema, mas elevado a uma magnitude mais contagiante e perfeita. É como se os realizadores tivessem pegado a cena do nascer do sol do clássico "Lawrence da Arábia" (1962) e moldando ela com o melhor que o desenho tradicional poderia oferecer naquela época. Na mesma sequência, testemunhamos os desenhos tradicionais se entre cruzando com desenhos feitos em computação gráfica, mas a serviço de elaborar um realismo absoluto, como se aquele momento realmente estivesse acontecendo. Esse início de "O Rei Leão" já dava uma dica do que viria a seguir posteriormente, quando o desenho tradicional daria lugar aos poucos para animação de computação gráfica. "Toy Story" (1995) viria logo a seguir e o resto é história.  

 

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Mas voltemos ao prólogo da obra, onde testemunhamos apresentação dos principais protagonistas, onde o Rei Leão Mufasa (voz de James Earl Jones) apresenta para os animais presentes o seu único filho, o filhote Simba. O sábio macaco Rafiki faz uma espécie de batismo para o filhote e o apresenta para os demais animais em cima da pedra do rei. Momento antológico, apresentado em poucos minutos e que mudaria o cinema como um todo.  
Diferente de suas obras anteriores baseadas em contos de fadas, a Disney optou em criar uma obra original, mas que também possui ingredientes familiares dentro da trama. Os mais atentos irão perceber que a história bebe da fonte do clássico "Rei Lear"(1606), de William Shakespeare, onde traições, quedas e redenções foram reaproveitadas e apresentadas para uma nova geração de público que, talvez, nunca tenham lido a obra. Ao mesmo tempo, é notório que foi usado o conceito de Joseph Campbell, "A Jornada do Herói", do qual foi publicado em 1949 e que serve até hoje de fonte de inspiração para a criação de muitos heróis da literatura, HQ e cinema.  

 

Falando em heróis, nenhum funciona dentro de uma trama se não tiver um ótimo vilão em cena. Não tenho a menor dúvida de que Scar (voz de Jeremy Irons) seja o melhor vilão da história do estúdio, pois é um personagem que nos provoca, tanto admiração, como também repulsa e raiva devido os seus atos maquiavélicos durante a trama. Vale destacar o ótimo trabalho de nossa dublagem da época, onde o dublador Jorgeh Ramos (1941 - 2014) transmite através de sua voz todo o lado sarcástico do vilão em cena. 

 

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Aliás, foi graças as artimanhas de Scar que tanto o pequeno Simba, como também os pequenos cinéfilos da época, sentiram o gosto amargo da perda. Já ouve tempos distantes, quando o próprio Disney ousou em matar um personagem querido no clássico "Bambi" (1942), mas essa ousadia, por sua vez, retornaria aqui e com muito mais força. A morte de Mufasa em cena é sem sombra de dúvida um dos momentos mais tristes do cinema e fazendo o pequeno protagonista abraçar uma encruzilhada de dor e perda. 

 

É nessa encruzilhada em que o conceito de Joseph Campbell é usado com força, já que o personagem precisa se reconstruir para que, futuramente, possa reconquistar o seu lugar de direito no círculo da vida. É então que a Disney usa a velha fórmula de personagens fofos, mas que aqui não são usados para encher a tela, mas sim para dar uma sobrevida ao pequeno protagonista. Os personagens Timão e Pumba surgem em um momento em que nós precisávamos enxugar as lagrimas e voltarmos a sorrir na frente da tela.  

 

Crescido, Simba precisa então optar em continuar no exilio, ou abraçar as responsabilidades que virão no seu futuro. Com ajuda de sua paixão Nala e do sábio macaco Rafiki, Simba encara a sua responsabilidade através das palavras do seu pai Mufasa vindas do céu. É nesse momento, aliás, que há um encontro de elementos da obra de Shakespeare com a história universal de Jesus Cristo quando o próprio se encontrava no deserto.  
Em seu ato final, o protagonista encara os seus desafios, enquanto Scar sucumbi perante as consequências dos seus atos maquiavélicos. Aqui, logicamente, há um distanciamento da trama quando ela é comparada a sua fonte original criada por Shakespeare. Porém, isso não diminui o impacto que o filme provocou e que ainda provoca nos dias de hoje.  

 

Voltemos ao nosso presente, onde estamos às vésperas de uma nova versão do conto para o cinema. Testemunharemos os conhecidos personagens com uma nova roupagem e efeitos visuais de ponta. Contudo, acho muito difícil que essa nova versão possa causar o mesmo impacto da obra original, sendo que, talvez, o seu único feito seja fazer com que essa nova geração tenha curiosidade em conhecer o clássico de 1994.  

 

Com a inesquecível música tema "Can You Feel the Love Tonight", de Elton John, além de uma onipotente trilha sonora composta por Hans Zimmer, "O Rei Leão" é a obra máxima dos estúdios Disney, da qual conquistou uma geração inteira e que irá sempre ser redescoberta e reavaliada. 

 

Marcelo Castro Moraes é Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 92 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre. Mais informações ou propostas para algum trabalho entrem em contato pelas minhas redes sociais ou pelo email.

 

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