25/10/2019 às 17:05:00

‘Girl’ – Conhece a Ti Mesmo - Por Marcelo Castro

 

No francês “Azul é Cor Mais Quente” (2013) testemunhávamos uma jovem enfrentando uma busca pessoal, em tentar descobrir sobre qual era o seu lugar no mundo e sobre a sua opção sexual. Em “Cisne Negro” (2009) assistimos uma jovem transitando entre a sanidade e a loucura para se tornar uma bailarina perfeita. “Girl” (2018) é a reunião destes dois mundos, onde vemos uma jovem em busca da perfeição, tanto profissional, como também em sua vida pessoal.

 

Dirigido por Lukas Dhont, o filme conta a história de Lara (Victor Polster), uma jovem transexual e que deseja se tornar uma bailarina profissional. Ao mesmo tempo, com um tratamento rigoroso, ela deseja o quanto antes transformar o seu corpo e assim obter o desejo que sempre sentia por dentro. Não demora muito para que ela mesma acabe se exigindo por demais nos dias que passa e testando, tanto a sua sanidade, como também sua performance física.

 

O filme já começa com uma apresentação primorosa do universo particular de Lara, já que nós não sabemos de imediato que ela é uma transexual, pois as informações vão ocorrendo de uma forma gradual e espontânea. A partir do momento que descobrimos a realidade de Lara nós ficamos espantados. porém, logo ficamos acostumados com o seu cotidiano, que é levar o seu irmão mais novo para o colégio, fazer o seu tratamento hormonal e ir para a escola de dança. O ator e bailarino Victor Polster nos brinda com uma atuação digna de nota, já que, graças ao seu visual andrógino, ele nos convence de que ele é realmente uma garota já nos primeiros minutos em cena.

 

Curiosamente, o filme não começa de forma dramática, mas sim convidativa, para que possamos ficar lado a lado da protagonista. Aliás, Lukas Dhont colabora para termos essa sensação, já que a sua câmera sempre vai em direção a Lara, como se a sua lente se tornasse os nossos olhos, fazendo a gente se tornar uma espécie de personagem que somente presencia os fatos. Uma vez que ocorre isso, adentramos os momentos mais íntimos da personagem, desde a sua preparação para os ensaios do balé, como também na sua luta para conseguir se enxergar no espelho da maneira como ela sempre quis ser.

 

Com isso, testemunhamos uma típica fábula adolescente, porém, realística, sobre uma jovem tentando se encaixar dentro do universo das demais pessoas. Curiosamente, o preconceito não surge por aqui de uma forma explicita, mas sim de uma forma indireta, através de alguns olhares que tentam entender a natureza de Lara, não de forma maldosa, mas que acaba sendo interpretado dessa forma pela protagonista. São momentos como esse, por sua vez, que fazem com que nasça certa tensão dentro de nós, pois nessa altura do campeonato estamos mais do que simpatizados com a protagonista.

 

Na medida que o filme avança a tensão cresce, principalmente pelo fato de sermos os únicos que realmente sabemos sobre o que se passa com ela internamente. Ao não se abrir com o seu próprio pai, (Arieh Worthalter) do filme “Primavera em Casablanca”(2018), Lara se coloca em um posicionamento perigoso e do qual pode lhe colocar em uma direção sem rumo. O ato final, aliás, sintetiza muito bem isso e fazendo a gente desejar que o pior não aconteça, mas sim somente o bem dela.

 

“Girl” é sobre a luta árdua de uma personagem em busca do seu lugar no mundo e que não medirá esforços para obter esse feito.
 

NOTA: Em exibição pela Netflix.

 

Marcelo Castro Moraes é Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de mais de noventa cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre.
 

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