21/08/2019 às 14:35:00

“As Filhas do Fogo” e a natureza humana - por Marcelo Moraes

Em filmes recentes como, por exemplo “Love” (2015) de Gaspar Noé, o sexo é apresentado de uma forma natural, como se a intenção ali não seja somente para chocar, mas sim para sabermos aceitar que é algo corriqueiro e sem nenhum preconceito. Claro que o conservadorismo de plantão sempre chega pela dianteira para lançar pedras, onde promove o cinema erótico como algo nocivo e do qual não pode ser visto. “As Filhas do Fogo” é um filme que veio para provocar, tanto para nos dizer que o sexo faz parte do nosso dia a dia, como também ele pode ser visto por uma visão mais artística. 

 

Dirigido pela cineasta Albertina Carri, do filme “A Raiva” (2008), a trama foca em três mulheres independentes de meia-idade que se encontram por acaso. Bem longes dos seus lares, elas começam a se relacionar de maneira poliamorosa. Quando percebem que estão livres daquilo que acreditam ser regras sociais possessivas, elas decidem formar um grupo cujo propósito é libertar outras mulheres que estejam passando pelos mesmos problemas.
Já nos primeiros minutos Albertina Carri nos deixa claro sobre quais serão os seus principais elementos e dos quais ela irá esbanjar ao longo da obra. Aliás, a cineasta nos seduz com belos planos abertos, onde foca uma natureza quase intocável, para que assim nos faça continuarmos na cadeira, mesmo quando uma cena chocante vem logo em seguida. Uma vez que conhecemos as primeiras protagonistas da trama, logo percebemos que o sexo será um dos elementos principais da obra, mas sendo apresentado aqui de uma forma cada vez mais rara hoje em dia numa tela de cinema. 

 

Diferente desses vídeos caseiros baratos e sem nenhum pingo de história que são espalhados pela internet, Albertina Carri procura sempre filmar o sexo visto na tela de uma forma mais perfeccionista, como se cada gesto dos movimentos dos corpos tivesse algum significado e tornando o ato algo primoroso e nenhum pouco vulgar. Além disso, diferente dos já citados vídeos habituais da internet, os corpos das personagens principais não são nenhum pouco esculturais, mas sim não escondendo as suas marcas da vida e tornando elas genuinamente mais humanas.

 

Humanidade, aliás, é algo que a trupe principal da obra procura durante uma viagem na estrada e da qual se há uma ligação forte entre o ser humano e a natureza. Assim como foi visto no clássico “Sem Destino” (1969), o subgênero de filmes de estrada é usado aqui para as protagonistas se reencontrarem em suas vidas, para assim se libertarem das amarras e enfrentarem os seus próprios medos que elas vivem enfrentando. O medo, por sua vez, é representado pela presença do homem violento e homofônico dentro da trama, mas do qual sofrerá perante a união de mulheres que se veem cansadas e que não estão mais dispostas a carregarem cicatrizes em suas vidas. 

 

Acima de tudo, o filme é para provocar até mesmo os setores mais conservadores, dos quais muitos irão ver algumas partes da obra como uma verdadeira blasfémia. Mas como foi citado acima, o lado perfeccionista da cineasta faz com que a cena mais chocante se torne algo apreciável de se assistir, mesmo para aquele que carrega sempre uma cruz. Curiosamente, em seus minutos finais, a cineasta deixa o seu lado perfeccionista de lado e nos brinda com um plano-sequência realmente provocante, sem elaboração, sem rodeio, mas sim cru e realmente incomodo.
“As Filhas de Fogo” é um filme incomodo, provocante, ardente, artístico e selvagemente humano.

 

NOTA: "As Filhas de Fogo" terá sessão especial com debate na próxima segunda-feira (26/08/19), pelo "Cinedebate" e na sala de cinema Cinebancários as 19horas.  R. Gen. Câmara, 424 - Centro Histórico, Porto Alegre.

 

Marcelo Castro Moraes é Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura, Cinema e Movimento e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 92 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre.

 

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